Yes, nós temos projeto

24, maio 2012 por Napoleão de Almeida

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OU: COMO O CORITIBA CHEGOU A MAIS UMA SEMIFINAL DE COPA DO BRASIL

Projeto. Palavrinha mágica – e batida – no futebol nos dias de hoje. Todo mundo tem projeto. Até o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanches, que destratou o sistema Barcelona de futebol mas, convenhamos, de Ronaldo pra cá colocou o Timão em outro patamar. É projeto pra cá, projeto pra lá. Venceu, o projeto está no caminho certo; perdeu, “calma, que o projeto é longo.”

Mas o que é projeto? E o que explica o Coritiba, orçamento 1/4 do que recebem São Paulo e Flamengo (por exemplo) chegar pelo segundo ano seguido à semifinal da Copa do Brasil – a quinta na sua história? É o mesmo sistema que vinha sendo criticado no Paranaense?

Projeto no futebol não pode se basear no resultado, mas tem que ter o resultado por finalidade, capicce? Ferran Soriano, ex-diretor do Barcelona, ensina em seu livro “A bola não entra por acaso”, que quando John Terry partiu para a cobrança do pênalti decisivo contra o Manchester United em 2008, escorregou e perdeu a chance de ganhar a Champions League, que o futebol é feito de escolhas e acasos. As escolhas corretas reduzem os acasos. Talvez Terry, capitão e formado no Chelsea, não fosse o mais indicado a bater o pênalti mais importante da história do clube naquele ano. Estava emocionalmente muito envolvido. O tempo passou e o projeto do Chelsea, que na verdade é um aporte pesado de dinheiro, acabou vingando em 2012. Mas, me cobrem no futuro, o Barcelona, que caiu para o mesmo Chelsea nesse ano, mas tem um projeto de identidade e longo prazo, vai seguir sendo o melhor; o Chelsea, envelhecido, terá que gastar mais para ter um time campeão novamente.

Ok, e o Coxa? Bem, não é uma coincidência o Coritiba chegar pelo segundo ano seguido à semifinal da Copa do Brasil. Se pegou uma chave “fácil”, ótimo; o Botafogo, com maior investimento, esteve na mesma chave e caiu. Se será campeão, é outra história: entre os quatro que devem chegar (escrevo antes de Grêmio x Bahia e aposto nos gaúchos) é o que tem menor poder financeiro e está levemente abaixo do São Paulo tecnicamente. Mas ali no campo, tudo é possível.

O Coxa, vale relembrar, ressurgiu das cinzas em 2010, com a entrada de Vilson Ribeiro de Andrade na vice-presidência. Esteve às portas da falência, viveu uma queda traumática para a Série B no ano do centenário do clube e apenas quatro anos depois de já ter caído. Em 2005, quando caiu pela primeira vez nessa sequência, tinha no comando um presidente com personalidade forte, que partiu para o atrito com a torcida diversas vezes. Era comandado meio a esmo: Giovani Gionédis fazia o que ele achava correto, apostando na velha guarda para a montagem do time. Caiu e voltou, dois anos depois, com um time montado só com a base. Mas não era um projeto: já com Jair Cirino no comando, caiu de novo em 2009 quando as vaidades foram maiores que o clube. Todos queriam tirar uma casquinha, fazer campanha. Uma estrela desagregadora no elenco, algumas panelinhas, comando dividido e fraco… deu no que deu.

Na época, Felipe Ximenes já era diretor do clube. Mas estava com o trabalho suprimido pela chegada de João Carlos Vialle, histórico coxa-branca, diretor de futebol à moda antiga. Ximenes me revelou que pediu para ir embora duas vezes. Cirino o impediu. Quando o clube foi rebaixado e poucos restavam para querer assumir, Ximenes atendeu novo pedido de Cirino, que por si próprio já atendera a um desejo de Andrade: ficar para resgatar a própria imagem. Nos bastidores, Cirino é muito bem-quisto por todos. Mantido no cargo, voltou à elite com um título estadual e o bi da B de cabo a rabo, com direito a 28 jogos fora de Curitiba.

Àquela época, o Coxa já construía o que se vê hoje. Todo jogador contratado é levado a conhecer a história do clube. Andrade e Ximenes se reúnem com atleta e empresário e querem conhecer o perfil profissional do jogador. É bom jogador? É boa pessoa? É agregador? Tem caráter? Quer vencer na vida? Essa linha pesa na impressão que ambos têm do jogador antes de bater o martelo. Previamente, são escolhidos pelo padrão técnico e tático. Andrade era da arquibancada nos anos 70, de supremacia coxa. Um time técnico, com meio campo forte e ataque rápido. Hoje, escolhe jogadores com características que atendam o Coxa que o torcedor quer ver em campo, com um estilo de jogo.

O técnico tem de ser uma pessoa que dirija o elenco, mas seja acima de tudo bom funcionário. Entenda que o clube precisa negociar e não fique pedindo reforços. E entenda como o time deve jogar. Ney Franco primeiro, Marcelo Oliveira agora. Pessoas tranquilas, competentes, e que deram um padrão de jogo ao time. Que sim, perdeu peças – e ainda não repôs a altura algumas – mas segue numa batida firme. Marcos Aurélio foi liberado ao Inter porque o clube via em Everton Ribeiro um jogador com características parecidas. Demorou, mas ele vem rendendo. O goleiro Edson Bastos só foi liberado agora porque já está com uma idade em que precisa jogar para ganhar melhor – está perto de parar. E porque Victor Brasil se apresenta como um bom banco.

Salários em dia, gestão de marketing correndo em paralelo, com Doth Leite, completam o projeto alviverde. Esteve perto de ir à Libertadores por duas vezes em 2011; perdeu uma em casa e outra em um clássico. Sem rompantes emocionais, seguiu o rumo.

Nem tudo é perfeito; existem erros, escolhas questionáveis, parcerias, posturas diversas. Mas, em linhas gerais, o Coxa tem um norte e continua na mesma batida. Raramente se envolve em polêmicas, os dirigentes não vetam entrevistas ou se escondem de certos temas. Quando questionados, apresentam suas versões. E, o mais importante, o time têm mantido a hegemonia local e chega de novo à uma reta decisiva nacional.

Projeto, de fato, é isso.

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