Inspiração do renascimento da África do Sul

Invictus, de Clint Eastwood, funde o rugby com o período pós-Apartheid do país da Copa de 2010

29/01/10 às 18:58 Lycio Vellozo Ribas
A África do Sul vai receber a Copa de 2010. Até aí, nada de mais. Porém, é certo dizer que o futebol é o esporte mais popular do país? É e não é. Os negros, maioria no país, realmente o preferem. Os brancos, porém, dizem que o esporte número um do país é o rugby. Consequentemente, os negros, que passaram mais de 40 anos espezinhados pelo regime racista Apartheid, detestam rugby. E essa preferência é bem exposta no filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood e que estreia hoje em Curitiba. O filme ajuda a entender a complicada convivência entre brancos e negros — o que é bom conhecer no ano em que o País sedia a Copa  do Mundo (de futebol).
A primeira sequência do filme, fruto de uma sacada genial de Eastwood, mostra bem a situação. De um lado da rodovia, brancos riquinhos treinam rugby, num campo bem verdinho, com uniformes e todos os equipamentos adequados. Um movimento de câmera mostra o outro lado da rodovia: num campo de terra, com traves de madeira e uma bola bastante detonada, criança negras faveladas e esfarrapadas jogam futebol. É quando um séquito de carros passa pela rodovia. Os negrinhos se juntam rapidamente à cerca de arame farpado, gritando “Mandela! Mandela!” e fazendo festa. Os jovens brancos, perto de uma bem-formada grade metálica, perguntam ao treinador o que está acontecendo. A resposta: “Parece que vão soltar aquele terrorista, o Mandela. Guardem esse dia. É o dia em que o país vai acabar”. Era 11 de fevereiro de 1990, dia em que o líder sul-africano Nelson Mandela foi libertado, após 27 anos e meio de cárcere.

A libertação de Mandela foi parte do fim do Apartheid, regime de governo sul-africano (legitimado pelos brancos, claro) criado em 1948 e que simplesmente suprimiam quase todos os direitos humanos dos negros. Quem fosse contra era preso, como aconteceu com Mandela. Ou era “suicidado” — poderia ser com uma rajada de metralhadora nas costas ou enforcado com um cordão de sapato amarrado a uma maçaneta. O regime caiu de vez em 1993 e, como os negros reobtiveram o direito a voto, o candidato negro Nelson Mandela ganhou fácil a eleição presidencial, em 1994. O filme de Clint Eastwood mostra rapidamente essas linhas, mas é a partir daí que a história decola.

Está na cara que unir brancos e negros não é fácil. E o problema cai nas mãos de Mandela. Ao contrário do que todos no filme imaginam — e muitos na vida real também —, ele nunca pregou privilégios aos negros da África do Sul, o que seria uma forma óbvia de vingança pelos anos de opressão. “Se fizermos isso, vamos nos tornar o que eles (brancos) acham que seremos”, diz ele, sabiamente.

Um dia, Mandela tem que interceder em uma reunião do seu partido, o CNA, que quer acabar com a seleção nacional de rugby, apelidada de Springboks (nome em inglês de uma espécie de antílope do país). Demover os correligionários é difícil — nem os mais chegados a ele concordam. Eis que o presidente vê uma forma de unir negros e brancos. Afinal, a África do Sul vai sediar o Mundial da modalidade em 1995, e a equipe nacional não conta com o apoio dos negros.

É aí que entra François Pienaar (Matt Damon). Ele é o capitão dos Springboks, que estão desacreditados entre os brancos e viraram motivo de chacota entre os negros, a poucos meses do Mundial. Mandela o chama para um chá em particular. Ambos trocam ideias. O presidente mostra ao atleta o poema Invictus, que batiza o filme. Escrito em 1875 pelo britânico William Henley, o poema se encerra com versos fortes. “Não importa o quão estreito seja o portão e quão repleta de castigos seja a sentença, eu sou o dono do meu destino, eu sou o capitão da minha alma". Foi a principal inspiração de Mandela para vencer os deprimentes anos de prisão. O próprio presidente, que admitia sempre torcer contra os Springboks, passa a apoiar o time. E inspira o resto do país a fazer o mesmo.

Freeman e Damon são os únicos estrangeiros em um elenco basicamente sul-africano. O primeiro empresta a dignidade que o papel de Mandela necessita. E o segundo está correto como Pienaar. Ambos foram indicados para o Globo de Ouro, nas respectivas categorias de ator e ator coadjuvante. Poderiam concorrer também ao Oscar, assim como o diretor Clint Eastwood, cada vez melhor às portas de completar 80 anos (em maio). Ao explorar as tensões de um país desigual e dividido racialmente, colocando em primeiro plano o esforço de um líder conciliador e visionário, Invictus cria paralelos com diversas outras situações. Clint Eastwood tem razão. A alma de Mandela é mesmo invencível.
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