A Ilha do Medo, o terror psicológico

Novo filme de Martin Scorcese surpreende

17/03/10 às 16:30 - Atualizado às 16:25 Cássia Lorenza, especial para o Bem Paraná
Leonardo de Caprio estrela o filme (foto: Divulgação)

Medo é definido pelos psicólogos como um mecanismo de defesa que atua de forma que a pessoa que o sente fique alerta frente ao perigo. É a resposta psicológica para que se possa garantir a sobrevivência em uma situação de risco. É este sentimento e este conceito psicológico que reinam durante todo o novo filme de Martin Scorcese e que sustentam todos os incríveis desdobramentos desta trama.

Estrelado brilhantemente por Leonardo DiCaprio, Ilha do Medo apresenta a história de um detetive que, em meados dos anos 1950, é designado para investigar o desaparecimento de uma mulher em uma ilha que abriga somente criminosos com sérios desvios psicológicos. Mas o desaparecimento desta paciente é apenas a ponta de um imenso iceberg submerso que levará o protagonista para uma das mais sombrias jornadas em busca da revelação de um mistério talhado nas profundezas de sua própria mente.

Extremamente bem executado, Ilha do Medo é realmente um dos filmes de suspense/terror mais assustadores dos últimos tempos. O roteiro denso, permeado por terrores psicológicos, flash-backs perturbadores e pesadelos vertiginosos, leva o espectador para um universo onde o real e o imaginário mistura-se em meio a alucinações e ao medo constante, fazendo com que nada nesta trama seja o que parece.

A exploração do medo afunda cada vez mais durante o desenrolar da trama, até chegar ao seu ápice nas profundezas do subconsciente humano, remetendo ao primeiro filme expressionista alemão, “O Gabinete do Dr. Caligari” e utilizando elementos de impulso dramático que são também correspondentes com as intenções desencadeadoras da explosão estética do expressionismo.

A Direção de Fotografia é primorosa, acentuando o clima de suspense e terror através estética expressionista, abusando de contrastes de luz extremos e aliados à execução perfeita de movimentos de grua intencionalmente tortuosos.

Os efeitos especiais também enfatizam o medo, tanto através de efeitos realistas de fortes tempestades quanto de simbólicos pesadelos consumidos por chamas e gelo, que desmoronam o protagonista em uma assustadora solidão.   

A direção de arte destaca-se por sua excelente caracterização de ambientes do hospital psiquiátrico que mais parece ser formado por prisões e labirintos, assim como no design do antigo cemitério, mas principalmente, no simbolismo dos pesadelos, misturado cenários realistas como campos de concentração nazistas com a representação de sinistros corpos mortos.

A maquiagem contribui para que a caracterização dos personagens seja ainda mais aterrorizante, misturando elementos como a sujeira de prisões antigas com a desfiguração facial, os corpos doentes dos prisioneiros de campos de trabalho forçado e o tom de vermelho intenso do sangue que contrasta com todo o restante.

A direção de Scorcese, como já era de se esperar, é brilhante, dando uma verdadeira aula de decupagem ao destacar pontos-chaves visualmente e intensificar o suspense da trama com estratégicos movimentos de câmera e enquadramentos próximos a ponto de levar o espectador ao universo interior do protagonista e distantes o suficiente para acentuar o desolamento, a solidão, a obsessão e o desespero.

O uso da trilha musical é criativo e inteligente, misturando obras de compositores modernos como Krzysztof Penderecki, Max Richter, Marcel Duchamp, Brian Eno, Nam June Paik, Robert Erickson, John Adams, Giacinto Scelsi e Ingram Marshall para criar uma parede de som. Ao mesmo tempo, algumas canções populares dos anos 1950 foram incorporadas para se chegar ao clima sonoro desejado por Scorcese, além do impactante uso puro e simbólico da obra de Gustav Mahler em uma das principais seqüências do filme, sobressaindo desta costura musical.

Completando o clima de tensão de Ilha do Medo, a edição arremata a construção narrativa em uma perfeita trama onde o medo é o forte fio condutor. A edição garante com total sucesso o crescimento do suspense e o impacto emocional a cada nova seqüência.

Ilha do Medo é uma obra-prima do suspense e do terror psicológico, capaz de levar qualquer espectador aos mais violentos sentimentos de medo através de uma narrativa que só pode ser definida como simplesmente brilhante. Este é sem sombra de dúvidas um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos. 

 


Ficha Técnica:

Título original: Shutter Island

Duração: 138min

Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Max Von Sydow

Direção: Martin Scorcese

Roteiro:  Laeta Kalogridis

Baseado no livro de: Dennis Lehane

Produtores: Mike Medavoy, Arnold Messer, Bradley Fischer, Martin Scorcese

Diretor de Fotografia: Robert Richardson, ASC

Diretor de Arte: Dante Ferreti

Edição: Thelma Schoonmaker, A.C.E.

Figurino: Sandy Powell

Supervisor Musical: Robbie Robertson

Supervisor de Efeitos: Rob Legato

 

2 Comentários

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Alecsandra
Sem sombra de dúvida um dos melhores filmes q já assiti, prato cheio para a psicologia, psicanálise e psiquiatria. A esquizofrenia mostrada de forma "artesanal " e uma trama totalmente envolvente q prende o espectador à procura de respostas para o clima de mistério que a ronda.
Sensacional !!!!!
Pedro
Filme muito bom, principalmente com aquele final!
outro detalhe que gostei foi a trilha sonora, aliás, qual o nome da música tocada na "vitrola", eu sei que é do Mahler, mas não a encontro.
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