Nem tudo é provisório

30/03/10 às 00:00 nikp@uol.com.br

“(...) e note-se: estas instalações sonoras são uma compósita, uma arquitetura nascente e movente de sons e de barro em que nem tudo é margem e nem tudo é dobra. nem tudo é linha e nem tudo é canto. daí tudo pode vir como evocação e também como esquecimento meio desta mistura de barro e som, como um desamparo.” Nas palavras de Manoel Ricardo de Lima, citadas acima, já é possível ter uma idéia da exposição   intitulada “Nem tudo é provisório”, que Eliana Borges e Roseane Yampolschi apresentam na Casa Andrade Muricy. (Alameda Dr. Muricy, 915 Fones: 41 3321-4798 e 3321-4786).
Repetindo que a somatória das partes é maior que o todo, as duas artistas, uma das artes visuais e a outra da música, criaram nas três salas da Andrade Muricy uma atmosfera que, ao mesmo tempo, é intimista e exuberante.
Eliana Borges é graduada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo – FEBASP, curso terminado 1986, tendo completado dois anos depois a sua pós-graduação em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Lidando com poéticas visuais, Eliana aprofundou seus estudos trabalhando inicialmente com os diversos aspectos do papel, desde sua confecção até seus diferentes empregos nas artes visuais. O projeto Arteiro Laboratório de Criatividade, que a artista coordenou em 1992, foi uma das maiores e melhores atividades do gênero realizadas em nossa cidade.
Ela também lidou com cinema e vídeo, transitando pelas diferentes modalidades das artes, porém mantendo sempre uma linha de conduta e de diferentes linguagens artísticas extremamente individualizadas e imediatamente reconhecíveis como de sua autoria.
Editora de arte da revista “Medusa” a partir de 1998 a 2000, e da revista “Oroboro” de 2004 a 2006, Eliana também é autora de diversos livros, entre os quais os livros de fotografias “Arteiros”, 1998, “Tortografia” em parceria com Ricardo Corona – em duas edições, sendo a segunda realizada em 2003, e em parceria com Soleni T. B. Fressato, “A arte em seu estado – história da arte paranaense”, em dois volumes, cuja primeira edição foi feita em Curitiba, pela Editora Medusa, em 2008.
Roseane Yampolschi  possui doutorado em Música (DAM) com ênfase nas áreas de Composição (Major) e Filosofia (Minor), pela University of Illinois at Champaign-Urbana em 1997, nos Estados Unidos da América. É também Mestre em Artes (Composição), pela Eastern Illinois University, curso terminado em 1991, no mesmo país. Premiada no Concurso da Bienal de Música Contemporânea, realizado em nosso país, ela também possui diversas distinções internacionais, como ISCM na Romênia, em 1999: The University of Illinois Performing and Creative Fellowship, University of Illinois, em 1993. Roseane apresentou obras em vários festivais e concertos no Brasil, destacando-se na Bienal de Música Contemporânea, no Rio de Janeiro e Festival Música Nova em São Paulo. Ela também participou do Terra Mundi, Terra Brasilis: A vanguarda brasileña de finales del siglo XX, no México em 2005; do The Chamber Players of the League/ ISMC, Nova York, 1997; do Festival World Music Days, em Oslo, na Noruega, em 1990; Iowa City Champain-Urbana em Chicago, nos EUA; e fez parte da Orchestra Abuzzese em Roma, Roseto, L’Aquila e Madrid.
Agora, ambas as artistas se reúnem para apresentar estas salas onde o aspecto lírico é dominante. Note-se que o termo – lírico – pode ser usado e entendido nos dois sentidos, tanto o musical com o qual é mais relacionado, quanto o afeto à conotação de lirismo como palavra do domínio poético e empregada para descrever um aspecto das linguagens artísticas. O que não quer dizer que esta instalação – que se estende por três ambientes – seja uma obra suave. Muito pelo contrário, ela é poderosa, e plena com “os pequenos seres de cerâmica” como os descreve Manoel Ricardo de Lima no catálogo: “nem tudo é provisório”.
O que considero mais instigante é até onde pode ir ou a que ponto chega a união destes dois segmentos de linguagens artísticas representados pelas especificidades dos estudos e currículos de suas criadoras?
Talvez a chave para a compreensão – e desde quando arte necessita ser compreendida? – pode estar no título desta exposição conjunta. Assim, o que se descortina é um mundo mágico onde “Nem tudo é provisório” e a arte se revela por meio de seus ícones individuados em que cada qual evoca não somente o signo único, porém a pluralidade das significações e identidades.

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