O real na contemporaneidade

27/04/10 às 00:00 nikp@uol.com.br

Uma notícia da Folha de São Paulo de alguns dias atrás tinha como assunto o fato que os pichadores da última Bienal foram convidados para participarem – como artistas – da próxima edição do evento. Isso exige uma reflexão que, numa primeira abordagem retorna ao que o grande Ferreira Gullar já vinha questionando em sua coluna no mesmo jornal. Trata-se da total mescla da realidade com a arte de nossos dias, ou melhor, da invasão da realidade na arte atual.
Batendo na mesma tecla, Gustavo Fioratti, enviado especial do referido jornal ao nosso Festival de Teatro de Curitiba intitulava “crise do drama” sua matéria do dia 29 de março próximo passado. No texto, ele faz referências aos precursores da cenografia teatral que investem pesado em elementos como cenários, luz e trilha sonora, considerados quase acessórios dispensáveis no teatro tradicional. Assim, além dos nomes de Márcio Medina, William Pereira e Bia Lessa, também foi citada uma declaração de Daniela Thomas: “Estive na Bienal de Veneza de 2009, e ali ficou muito evidente que as fronteiras entre expressões artísticas caducaram”.
Na verdade, faz um bom tempo que surgiu a tendência de unir as artes plásticas – agora chamadas visuais em função dos recursos referentes ao olhar – aos recursos oferecidos por outras áreas artísticas. Entretanto, empregando sempre a criatividade.
Esta inclinação de reunir as diferentes manifestações da arte vem se desenvolvendo desde o século passado, em especial nas ações do Dadaísmo como as apresentações de Hugo Ball em 1916 no Cabaret Voltaire, as atividades da Land Art, a “Columna merz em estructura merz” de Kurt Schwitters, os Happenings, as performances de Joseph Beuys, a Arte Corporal, que ultrapassa o objeto pelo uso do corpo do próprio artista em cerimônias nas quais há brutalidade e dor, como aconteceu na ação intitulada “Orgien-Mysterien-Theater” em janeiro de 1974, na cidade de Munique, portanto há 34 anos atrás. Hugo Ball vestia uma roupa e um chapéu metálicos que o transformava quase em um boneco e recitava não poemas, porém sons da oralidade como “o”, “ah”, “ãn” durante horas. Os dadaístas faziam também representações interdisciplinares, executavam “músicas barulhentas”, leituras simultâneas de poesias, nas quais uma fala abafava propositadamente a outra. 
O movimento Dada também provocava – principalmente a polícia alemã – em atos tais como convocar o público para reuniões aparentemente subversivas em bairros especificados, onde não ocorria absolutamente nada além da surpresa de quem comparecia e não via nada acontecer. 
Porém, no teatro, com o poder absoluto do texto falado e interpretado pelo artista que realmente dispensa os acessórios, o avanço dos recursos exatamente como foi feito no Festival de Curitiba alcançou um patamar digno de nota. Diria ainda mais, talvez seja esta uma reação das companhias teatrais ao excesso de visualidade que transita pela Web e arredores. Entretanto, não se pode negar que esta é uma postura que reforça a questão da realidade inserida no teatro. Aliás, uma realidade falsa, pois teatro é teatro, e também é uma manifestação artística tanto quanto as demais artes.
Agora, é muito estranho que haja convite para os pichadores de uma Bienal de São Paulo – mesmo a considerando como não realizada devido ao “vazio” e aos contratempos que lá tiveram lugar – se apresentarem na Bienal seguinte devido à sua traquinagem e desrespeito ao próprio prédio de Oscar Niemeyer, sem falar do descaso ao evento em si.
Ali, não se trata de reconhecer a validade de uma postura de rebeldia dos pichadores, senão de um total non-sense que abre caminho à pichação e não à arte dos verdadeiros artistas que a muito custo e criatividade desenvolveram suas linguagens e foram selecionados.
Se não é uma mistura do real interferindo na seleção dos artistas desta Bienal, o que é isso então? Será que a realidade começa a aparecer tão verdadeira na arte que subverte a escolha dos artistas que dela vão participar, a ponto de se assemelhar muito mais a um dos escândalos que correm soltos por aí afora?
Mas seria esta a mensagem escondida por detrás do real? Ou então seria tão explícita que não se torna mais necessária realizar uma seleção justa perante a arte dos demais artistas? Ou a arte passou a ser tão real que elimina a seleção? Bastaria então interferir ilegalmente em qualquer ambiente museológico ou artístico para virar artista convidado em eventos importantes?  Então não precisa mais haver Bienal, vamos sair às ruas que a arte está lá por inteiro... E ela tem um nome: “a dura e cruel realidade”.

Falando em Festival de Teatro de Curitiba, parabéns a Leandro Knopfholz e sua equipe que apresentaram em 2010 uma das melhores edições do evento.

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Lenita Stark
dura e cruel realidade!
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