Pintura sempre

11/05/10 às 00:00 nikp@uol.com.br

Dentre as diversas exposições que acontecem muitas vezes somente para manter os calendários dos espaços artísticos, aparece de vez em quando alguma que merece ser visitada.
É o caso da mostra “Pintura Quase Sempre... e eles construíram a Modernidade no Paraná” que está exposta no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Rua Desembargador Westphalen, 16 fone 41 3323-5328).


Com a meticulosa curadoria de Fernando Bini, obras de Fernando Velloso, João Osório Brzezinski, Ida Hannemann de Campos, Fernando Calderari, Domício Pedroso e Antonio Arney estão reunidas nas salas do museu numa clara demonstração da importância que estes artistas tiveram na renovação artística do Paraná. Acompanhada de folder com um excelente texto do curador, no qual é explicada a concepção da mostra e as razões histórico-artísticas que a fundamentam, esta exposição foi idealizada pelo diretor do MAC/PR Alfi Vivern. Um dos principais objetivos do diretor era o de reunir um grupo de artistas que, além de terem participado e construído a Modernidade no Paraná, continuam reafirmando o inesgotável prazer de pintar através de suas obras agora expostas.
Segundo o curador: “O Movimento Moderno no Paraná, sob a forte influência de Guido Viaro e também de Poty Lazzarotto, tem sua origem no que se convencionou chamar de Movimento de Renovação, a partir do 14º Salão Paranaense de Belas Artes em 1957, quando os artistas que já possuíam uma linguagem mais contemporânea, descontentes com a ação do júri, altamente comprometido ainda com a arte acadêmica e rançosa, provocam o aparecimento do Salão dos Pré-julgados.” Assim, sob a liderança de Loio Pérsio, Alcy Xavier, Paul Garfunkel, Nilo Previdi, Ennio Marques Ferreira, Fernando Velloso e outros, o grupo pretendia uma ‘modernidade tomada à força’, tendo como ponto de partida o ‘expressionismo’, o que veio a abrir os caminhos para abstração de Fernando Velloso, Fernando Calderari, Domício Pedroso, Nelson Luz, Helena Wong e Érico da Silva.
O curador Fernando Bini também explica que a “Pintura Quase Sempre” é o título de um livro de Sérgio Milliet, publicado pela Editora Globo em 1944, no qual se encontra a frase “o artista sensível, antes marginal, assume agora a liderança e fala numa nova linguagem que ainda não conhece gramáticas”. Com isso, o artista não quer mais se prender a gramáticas, não quer se prender a normas e leis, quer procurar a sua liberdade, quer construir suas próprias normas a partir da grande herança do seu passado histórico. Bini continua demonstrando que esta é a proposta da modernidade e o que nos atrai nela, mesmo dominando os códigos da pintura e tendo consciência do processo crítico pelo qual ela passou com relação a sua herança tradicional, este artista moderno, pós-Segunda Grande Guerra, descobriu novamente ‘o prazer de pintar’.


Acrescento à fala do Bini, que também meu olhar, agora transformado em retrospectivo, dado o tempo decorrido entre a elaboração das obras expostas e o presente, continua destacando a situação prazerosa como lait motif  do ato de pintar destes artistas. Virtuosismo, maestria, qualidade técnica são alguns dos atributos ressaltados por este grupo de artistas.
Como este também foi um trabalho de garimpo, no qual o curador se empenhou por mostrar algumas das jóias da arte paranaense que normalmente não estão disponíveis, estão expostas na exposição obras que pertencem a coleções particulares, bem como pinturas que compõem o Acervo do Museu de Arte Contemporânea do Paraná.
Fernando Velloso apresenta “Infinitas possibilidades” de 1998, em técnica mista sobre tela, obra que pertence a uma coleção particular. Na mostra, a obra “Tributo à Moldura – Por Fio No Horizonte”, de 1988, um tridimensional elaborado por João Osório Brzezinski é uma das que dificilmente podem ser admiradas, pois também integra uma coleção particular. Ida Hannemann de Campos também expõe uma pintura a óleo sobre tela intitulada “Reflexo no espelho da água”, de 2006, na qual se pode ver a maestria da veterana artista que continua a trabalhar. Fernando Calderari é representado por “Pintura I”, de 1966, na técnica do entalhe sobre madeira.  Domício Pedroso também expõe uma pintura sobre tela – raramente vista – intitulada “Inverno em Paris” de 1961, época em que o artista e sua família residiram na França.  E Antonio Arney comparece com “Uma hora mais ou menos” de 1966, executada com sucata, aguada e madeira sobre chapa de madeira, obra componente do Acervo do MAC/PR.
A exposição permanece aberta até 13 de junho de 2010.

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