Uma questão de generosidade

08/06/10 às 00:00 nikp@uol.com.br

Estava lendo jornal quando me deparei com a matéria sobre uma das mais importantes artistas brasileiras, infelizmente já falecida. O texto tratava da impossibilidade de suas obras serem expostas na nossa Bienal que se aproxima.
Na verdade, a Bienal Internacional de São Paulo é – ou pelo menos foi – considerada logo após sua criação e até pouco tempo atrás, um dos dois maiores eventos da arte mundial, juntamente com a Bienal de Veneza.  Esta última detém também a marca de ser a primeira bienal estabelecida no universo artístico e só para lembrar: o nosso Theodoro De Bona foi um dos artistas que nela expôs suas obras na época em que estudou na Itália. Voltando ao artigo que li, a não participação daquela artista se deve ao fato que seus herdeiros exigiram uma soma respeitável de dinheiro para o empréstimo das obras. Que pena! Porque não somente seus trabalhos artísticos teriam a oportunidade de serem apreciados mais uma vez, como seria mais uma bienal a contar com sua brilhante participação, comprovando desta maneira a perenidade e a atualidade de sua arte. 


Não se pode descartar outra possibilidade: a de que a relutância da família da artista em expor suas obras esteja baseada no receio que o fiasco da bienal passada seja repetido neste ano. Porém, há que se louvar o esforço da atual gestão da entidade e, do mesmo modo, da equipe de curadores para elevar novamente o evento ao nível e prestígio que ela desfrutou por muito tempo. Então, se o motivo for somente financeiro é uma pena!
Aí me pergunto sobre o que a própria artista faria nesta situação. O desprendimento demonstrado por ela durante toda sua vida artística não prevê uma atitude de negação. Seu espírito curioso e a necessidade de estar sempre pesquisando novos caminhos a levaram a extrapolar os meios de expressão comuns às artes plásticas de seu tempo. Tinta e pincel, tela, lápis, recortes de alumínio, uma vez explorados ao limite, deram sua vez a uma arte que acabou por englobar a vida, a cura, tanto física quanto espiritual em procedimentos que somente hoje em dia encontra processos similares em clínicas especializadas. O enorme conhecimento que a artista tinha do mundo e do ser humano, ela levou para sua arte, fazendo com que as pessoas explorassem suas sensações, sentissem seu corpo, percebessem seus sentimentos.


Esta espécie de doação da artista para este trabalho aconteceu numa época em que acredito que as pessoas talvez nem tivessem idéia dos aspectos cognitivos e psíquicos que envolvem o ser humano e em suas vidas nem chegassem a conhecer algum psiquiatra ou psicólogo. Eram os anos em que somente os “loucos” freqüentavam consultórios daqueles profissionais.
Interessante que se me pedissem uma palavra para definir esta artista e sua obra, o termo seria “generosidade”.


Pode ser ingenuidade minha, mas a escolha de um curso por parte de um estudante, por exemplo, das artes visuais, como era antes a de artes plásticas já sugere certo desprendimento. Não se trata de medicina nem da informática de hoje em dia, com emprego garantido. O candidato a artista pode ter certeza que vai estudar e trabalhar muito, vai ralar e sofrer bastante até conseguir estabelecer sua linguagem artística, se conseguir. E depois, se tiver sorte, terá seu lugar ao sol ou irá dar aula em alguma faculdade de artes.
Além do que, hoje é preciso determinar algo absolutamente original que marque sua arte de tal forma que a torne reconhecível entre milhares de outros artistas. Ao contrário da arte das “bottegas” italianas, por exemplo, quando bastava ao aprendiz reproduzir corpos, paisagens e naturezas mortas que lhe garantiriam um futuro razoável à frente.
Claro que não estou me referindo aos grandes mestres que rompiam as amarras da arte já conquistada e ousavam evoluir em pequenos avanços, muitas vezes em concepções ligeiramente diferentes que eram comentadas ou aprovadas. Ou então aqueles artistas como Leonardo da Vinci com “Mona Lisa” e “A Última Ceia” ou Michelangelo quando pintou o teto da Capela Sistina e o afresco do “Juízo Final”, estes no Vaticano.
Então, há um componente de renúncia ou sacrifício na arte, seja nas artes visuais, na música, na dança. E uma resposta que deve brotar do íntimo do artista ao expor sua arte – uma obra é quase um filho para o verdadeiro artista e um filho não tem preço, tem valor. E o valor não pode ser mensurado pelo dinheiro, pelo custo, e sim pela criação artística que é original, plena e única e deve sempre ser mostrada, até para não ser esquecida.

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