Sobre arte e vazios

15/06/10 às 00:00 nikp@uol.com.br

Para quem gosta de arqueologia, história das conquistas espanholas, e até mesmo de ourivesaria, está aberta na Pinacoteca do Estado, na cidade de São Paulo, uma das mais atraentes exposições do gênero. Trata-se da mostra “Ouros de Eldorado – Arte Pré-Hispânica da Colômbia” que apresenta 291 artefatos pertencentes ao acervo do Museu do Ouro de Bogotá. Esta exposição merece uma viagem à capital do estado vizinho, pois se trata de oportunidade única de ver alguns dos artefatos que conhecemos somente por ilustrações em livros. 
Com curadoria de Clara Isabel Botero, diretora daquele museu, 251 objetos de ouro mais 40 cerâmicas estão dispostos nas seis salas da Pinacoteca mostrando um excelente panorama da arte pré-hispânica. Em montagem cuidadosa e elaborada para destacar as peças da exposição, o visitante tem a oportunidade de observar a riqueza, não somente do ouro exposto, mas a criatividade e o requinte demonstrado pelo trabalho dos artesãos, e porque não dizer, dos verdadeiros ourives que os criaram.
As peças em ouro – geralmente mais trabalhado nas duas dimensões principais, o que nos lembra recortes – revelam formas e aspectos exóticos, e fornecem pistas para que possamos vislumbrar ou imaginar o modo de vida daqueles povos há muito desaparecidos. Para situar no tempo, as peças agora apresentadas foram produzidas no período entre 100 anos antes de Cristo a 500 depois. A exposição permanece aberta até 22 de agosto. Informações: fone 0/xx/11/3324-1000.
A palavra “arqueologia” lembra também o transcorrer do tempo, o decurso da história, e também uma espécie de limbo devido a que nosso conhecimento daquelas épocas somente pode ser deduzido ajudado pela imaginação. Alguns sítios arqueológicos que se mantém – como os do Egito em primeiro lugar, as muralhas da China, as construções dos Maias – ainda nos permitem um verdadeiro conhecimento do que foram as civilizações antigas. Porém, muito do passado é construído somente pela nossa imaginação que, hoje em dia, é felizmente auxiliada por criações digitais que procuram nos dar uma idéia como foram as civilizações do passado.
Entretanto, o real conhecimento do que se passou – e aqui cito a história, uma vez que ela sempre é o resultado da ideologia do vencedor e não da dos povos vencidos – permanece no que posso chamar de vazio. Este seria um não-lugar depositário de incontáveis relatos e saberes hoje esquecidos – um vácuo do esquecimento tão esquecido que nunca mais irá emergir e contar as suas histórias secretas. Um verdadeiro vazio.
Este vazio me faz lembrar de um livro que li intitulado “O Roubo da Mona Lisa – O que a arte nos impede de ver” Elsevier e Editora Campus, 2005. Seu autor, o psicanalista Darian Leader é membro fundador do Centro para Análise e Pesquisa Freudianas de Londres.  E, é óbvio que, fundamentado em seus conhecimentos psicanalistas, ele escreveu um livro pequeno em tamanho, porém grande na essência, que explica e nos faz ver a questão do “vazio”.
Pelo título, é claro que o teor do livro é previamente revelado, o que não lhe tira o prazer de lê-lo. E é incrível o que Leader escreve sobre o roubo da Mona Lisa, a mais famosa pintura do mundo. É de se supor que, na época, em 1911, o quadro não tivesse a repercussão e o reconhecimento universal que hoje desfruta graças aos meios de comunicação. Mas, não se pode esquecer que aquela pintura sempre foi o maior destaque do Museu do Louvre, inclusive porque a Itália acabou perdendo o quadro por Leonardo da Vinci ter morrido em 1519, sob os cuidados do rei francês Francisco I que o acolheu no final da vida.
A primeira surpresa que o autor nos faz é contar que a pintura da Mona Lisa ficou desaparecida – tinha sido roubada por um italiano que pretendia devolve-la à Itália – por mais de 24 horas antes que alguém desse pela sua falta!
O autor informa que depois do roubo descoberto, multidões acorreram ao Louvre para ver o espaço vazio onde a Mona Lisa estivera dependurada! Para ver o quê?  E era espantoso o número de pessoas que contavam nunca terem ido ao museu e nem conhecido a obra verdadeira, a não ser por reproduções – que, diga-se de passagem, eram bem precárias à época. Voltando ao livro que recomendo, o autor traça paralelos entre o público e o olhar sobre a arte, além de questionar a identidade do ser humano. Também levanta tópicos sobre a psicologia da contemplação da arte visual e escreve sobre inúmeros autores e artistas entre os quais Gombrich, Van Gogh, Duchamp, Andy Warhol. E só para terminar, é interessante saber que o ladrão Vincenzo Peruggia, após sair da prisão, abriu uma loja de venda de tintas para artistas!







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