Quincas Berro D´Àgua chega às telonas

Versão cinematográfica da obra de Jorge de Amado conta a história da segunda morte de um malandro

25/06/10 às 00:00 - Atualizado às 11:17
A morte é apenas um detalhe, Quincas ainda vai aprontar muita coisa antes de morrer pela segunda vez (foto: Divulgação)
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Considerado por muitos críticos a melhor obra de Jorge Amado, A Morte e a morte de Quincas Berro D’Água ganha a primeira adaptação para o cinema pelas mãos do diretor e roteirista Sérgio Machado, que chega com um mês e atraso aos cinemas curitibanos. O romance já foi traduzido para 21 idiomas e, só no Brasil, já vendeu mais de 3 milhões de exemplares – se tornando a segunda obra mais vendida do escritor baiano no País. Quincas Berro D’Água - pseudônimo do ex-funcionário público Joaquim Soares da Cunha - é o líder de uma turma de malandros de Salvador que tem o azar de falecer na madrugada do dia em que completaria 72 anos.  Mas, como para esse grupo a morte é apenas um detalhe, Quincas ainda vai aprontar muita coisa antes de morrer pela segunda vez.

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A Morte... é uma crítica azeda aos comportamentos burgueses, numa Bahia composta por duas sociedades paralelas e que quase nunca se encontram. Para o filme, o personagem de Quincas ganhou um intérprete de peso: o ator Paulo José. Dividem a cena com Paulo, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladmir Brichta, Flávio Bauraqui, Irandhir Santos, Luis Miranda e Frank Menezes, além das participações especiais de Milton Gonçalves, Othon Bastos, Walderez de Barros e Carla Ribas.

A direção é de Sérgio Machado, que guarda mais do que uma ligação espiritual com Jorge Amado. É ao escritor que ele atribui o início de sua carreira e a primeira grande parceria artística, com Walter Salles. Produzido por Walter, ele dirigiu em 2001 o documentário Onde a Terra Acaba, sobre o cineasta Mário Peixoto, diretor do clássico Limite (1931). O documentário conquistou prêmios nos festivais de Gramado, Rio, Recife, Havana e na Mostra de São Paulo. No ano seguinte, dirigiu para a TV Globo sua primeira adaptação de uma obra de Jorge Amado, o especial Pastores da Noite.

Em 2005, Sérgio concluiu seu primeiro longa-metragem de ficção, Cidade Baixa, sobre um triângulo amoroso entre dois amigos e uma prostituta na zona portuária de Salvador, estrelado por Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga. O filme foi selecionado para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio da Juventude e colecionou premiações em vários festivais no Brasil e no mundo. Com Karim Ainouz, seu parceiro artístico, dirigiu para a HBO, em 2007, a série Alice.O cineasta construiu também uma sólida carreira como roteirista dos seus próprios filmes e dos de seus parceiros, como Abril Despedaçado, de Salles, e Madame Satã, de Ainouz. Com Quincas Berro d’Água, Sérgio chega ao seu segundo longa de ficção adaptando uma das obras mais populares de Jorge Amado.
Pode-se dizer sem exagero que o gaúcho Paulo José é o ator mais importante da história do cinema brasileiro. Começou a carreira em 1955 fazendo teatro em Porto Alegre, ao lado de colegas como Paulo César Pereio e Lilian Lemmertz. No Rio, nos anos 60, fez parte do Teatro de Arena ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Juca de Oliveira.

No cinema, atuou em mais de 40 filmes e trabalhou com os maiores diretores dos anos 60 e 70: Joaquim Pedro, Domingos de Oliveira, Walter Hugo Khouri, Luiz Sérgio Person, Hector Babenco. Nos últimos anos, foi visto em Saneamento Básico, de Jorge Furtado, e Juventude, de Domingos de Oliveira. Em 2010, trabalha em O Palhaço, com direção de Selton Mello. Na TV, atuou em diversas novelas. Leia trechos da entrevista de Paulo José.

Jornal do Estado — O que o levou a aceitar o desafio de viver Quincas Berro d’Água?
Paulo José —
O personagem morre na primeira cena. Depois, morto, era só parar de respirar e ser carregado pelas ladeiras de Salvador, puteiros, terreiros de candomblé, até morrer de novo no fundo da Baía de Todos os Santos. Trabalho nenhum. O desafio foi ainda menor porque a filmagem correu lindamente, docemente, saborosamente como num livro do Jorge Amado.
JE — Como foi o trabalho com o diretor Sérgio Machado?
Paulo —
Sérgio Machado é do bem. Ser fofo (expressão da pós-modernidade) é ser do bem. Logo, Sérgio Machado é um fofo. Quem não é babaca é porreta. Sérgio Machado não é babaca, logo Sérgio Machado é porreta. Sergio Machado é o cara.   Por que tanto elogio para Sérgio Machado? Porque eu gosto dele, gosto de sua teimosia, sua obstinação, sua tenacidade, seu talento, sua maneira de ver e fazer cinema. Uma amizade para cultivar para o resto da vida.  Sérgio Machado é o cara.
JE — Como foi o desafio físico de fazer Quincas, já que você passa boa parte do filme carregado pelos amigos? O Sérgio diz que você é incansável no set.
Paulo —
Por que essa insistência com a palavra desafio? Será que ocorreria a algum repórter perguntar ao neurologista Paulo Niemeyer: “Como o senhor aceitou o desafio de colocar um marca-passo na cabeça do Paulo José?” Quer dizer, o comerciante comercia, o papa papeia, o ator faz personagens, simplesmente.
JE — Como você se aproximou do universo de Jorge Amado para compor o personagem? Já havia atuado em alguma outra adaptação dele para TV, teatro ou cinema?
Paulo —
Não me aproximei. Ele é que foi me cercando, cercando, desde minha adolescência, há mais de 50 anos. Começou com O País do Carnaval, depois Cacau, depois Suor e assim por diante.  Não houve composição. O personagem tinha 70 anos, sempre meio de porre, maltratado pelas noites de esbórnia. Eu tenho 70 anos, ando meio de banda (“carrego meus mortos do lado esquerdo”, diria Drummond), cabeça branca, maltratado pelos anos. Pergunto: precisa fazer composição? O personagem termina dizendo uma bela frase: “Afinal, só tem que chorar a morte quem morreu sem ter vivido.” Por que a história de Quincas é um clássico pertinente ainda hoje? Enquanto houver compaixão pelo ser humano, pelas pequenas criaturas, marginais, filhos do acaso, vagabundos, meretrizes, e não tivermos perdido a ternura nem o desejo de que esses anti-heróis, nossos semelhantes, nossos irmãos, vençam a violência, os preconceitos e a brutalidade, Quincas Berro d’Água estará sendo escrito hoje, por cada leitor, reinventado por cada espectador em qualquer sala de cinema.

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