Arte e seu mercado

29/06/10 às 00:00 nikp@uol.com.br

Arte e seu mercado
A cada vez que leio jornais de São Paulo – assino a “Folha de S. Paulo” – fico me perguntando por que no Paraná até hoje não há mercado de arte. Diante das mais efusivas manifestações de euforia sobre as vendas de obras de arte no Estado vizinho, fico comparando a inércia de nosso mercado – aliás, não se pode chamar de mercado algo que ainda é tão incipiente – a palavra seria talvez “vendas”.
Portanto, as vendas aqui efetuadas giram muito mais em torno de atividades isoladas, eventualmente de algum artista que já tenha seus compradores efetivos, outros que pelas premiações e atividades ao longo do tempo já tenham demarcados seus territórios constituídos por fãs incondicionais, ao mesmo tempo em que um grande e persistente trabalho de divulgação é realizado pelas poucas galerias de Curitiba. Costumo dizer que nossos galeristas são muito teimosos e acreditam que esta situação possa ser revertida. Aliás, sei que ao longo do tempo e pelo esforço já despendido pelas galerias curitibanas, alguns resultados já aparecem como efetivos.
Um dos segmentos que mais se desenvolvem é o do público jovem educado pelas publicações especializadas e pelo desejo de acompanhar o que acontece no mundo. Ao decorar seus flats e apartamentos com trabalhos artísticos originais, esta é uma parcela de público que já aprendeu a valorizar as obras de arte e não se contenta com reproduções. Os jovens que integram este segmento têm plena consciência do que estão fazendo, conhecem arte e têm gosto diversificado no qual se inclui também a compra de obras de arte – geralmente pinturas a óleo ou esculturas de pequenas dimensões – elaboradas pelos antigos mestres paranaenses.
Quero ressaltar que o fato de aqui mencionar os tamanhos reduzidos não significa nenhum comentário depreciativo, pois conheço vários colecionadores que iniciaram suas coleções de arte pela compra do que chamo “pequenas jóias” que são justificadas até pela redução dos cômodos dos apartamentos e das residências atuais.
E mais, também não há depreciação relativa a tamanho na história da arte. O que pode influir no preço de obra de arte relativo à encomenda ao artista ou na hora da compra não mantém o mesmo teor frente a uma futura negociação, uma vez que o importante é a arte e não o seu tamanho.
Muitas vezes, o trabalho do artista é mais valorizado justamente pelas suas dimensões menores. As gravuras em pequenos formatos do gravador Marcio Périgo atingem um grande valor no mercado, justamente pela composição e pelo trabalho minucioso com que são realizadas.   
As técnicas que ele utiliza para gravar no metal, entre as quais a água-tinta, água-forte e maneira negra, são das mais laboriosas e se constituem, por elas mesmas, como bem restritivas. De igual modo, o buril, o roulette, o berceau são meios ainda mais extremos e definitivos, pois desde o momento em que o metal é fendido pelo instrumento a seco, não há muito que se possa fazer para reverter o procedimento. Porém, o que nos surpreende, é que para Marcio Périgo nada parece ser obstáculo à criação da sua gravura e muito menos as dimensões reduzidas se suas obras.
Outro aspecto de sua arte é que a gravura de Périgo tem projeto. Apesar do fato da obra gráfica ser normalmente produto da “cozinha da gravura” – no bom sentido, ao se somar e se retirar partes através de procedimentos – toda intervenção executada por este gravador é, de certo modo, pré-determinada e calculada em seus efeitos, senão em todos, pelo menos nos principais. Neste ponto, eu até diria que todos são calculados previamente, pois a sua gravura tem muito do fator cerebral na execução e Périgo é muito centrado. E o próprio processo de gravar exige este tipo de atitude do gravador, uma vez que na gravura não pode haver erro e determinados processos não podem ser revertidos, pois acarretam a perda da chapa de metal e do trabalho até ali realizado.
Praticamente não há intervenções na obra de Marcio – o que existe é um extremo equilíbrio das formas, sendo cada etapa executada e prevista em sua correta seqüência, de modo a aproveitar tudo o que a técnica e a linguagem artística possam oferecer em cada uma das imagens. A sua obra me parece muito pensada – arrisco aqui uma comparação com Zen, no sentido em que uma grande clareza mental e metodologia de trabalho apontam previamente o caminho. Daí surge uma gravura teleológica, em que tudo é arranjado para que do esforço resulte uma obra limpa e racional pelo trabalho, porém emocional e sensível na sua apresentação final.

0 Comentário

Você precisa acessar o seu perfil para comentar nas matérias.

Blogs
Ver na versão Desktop