Colégios públicos com desempenho de particulares

São os colégios federais, técnicos e militares que, apesar de não pertencerem à rede privada, também se destacam com as maiores pontuações do País

12/01/12 às 22:21   |  Yannik D’Elboux, da revista Profissão Mestre para o Bem Paraná

As instituições públicas de ensino quase não aparecem entre as escolas com as melhores notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2010. O topo da lista é dominado pelas particulares. Por outro lado, entre as piores, as públicas são maioria esmagadora. A exceção fica por conta de colégios federais, técnicos e militares que, apesar de não pertencerem à rede privada, também se destacam com as maiores pontuações do País. Essas escolas são as únicas do sistema público que ocupam posições entre as 100 mais bem classificadas no Enem. Não é por acaso que esses colégios conseguem se diferenciar das escolas estaduais e municipais de ensino regular e obter resultados superiores. Dos professores aos alunos, muitas são as diferenças que explicam o bom desempenho. Nessa reportagem, os diretores e coordenadores das três instituições públicas com as maiores médias no Enem revelam as particularidades que impulsionam o alto rendimento e que podem ajudar as outras escolas a entender o que falta para que também subam no ranking.

Para começar, o Enem não faz parte dos objetivos desses colégios. Segundo os dirigentes, os bons resultados alcançados – com notas acima de 710 pontos enquanto a média nacional ficou em 554 – são apenas reflexo da boa qualidade de ensino. O que para muitos pode parecer um modelo a ser seguido, para os dirigentes não passa de rotina, e por isso eles às vezes têm até dificuldade de perceber o que existe de diferente em relação às outras escolas. Um ponto fundamental é a formação dos professores. A maioria possui pelo menos especialização e muitos são mestres e até doutores. Como muitas dessas escolas são federais e estão ligadas a universidades, também faz parte do trabalho dos docentes o desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão. Segundo a professora Maria Teresa Garcia Badoch, secretária de Educação Profissional e Graduação Tecnológica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Curitiba (PR), que obteve com seus cursos técnicos a média 717,77 no Enem, os docentes do ensino médio também dão aulas para os estudantes da graduação. “Temos doutores dando aulas para os nossos alunos de ensino técnico”, afirma. A instituição ficou em segundo lugar entre as públicas, porém teve a participação de 48,6% dos alunos nas provas, e por esse motivo nem sempre aparece nas listagens divulgadas na mídia.

Além de ter boa formação, os professores trabalham em regime de dedicação exclusiva, com tempo previsto na carga horária para atividades extraclasse, como planejamento e elaboração de provas, facilitando a rotina do profissional, que não precisa ficar se deslocando de uma escola a outra como acontece frequentemente com muitos educadores. As horas gastas em sala de aula dificilmente ultrapassam a metade da jornada de trabalho, que tem, em média, 40 horas semanais. No Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni), a primeira escola pública do País classificada por três vezes consecutivas entre as dez melhores no Enem e que conquistou a média de 726,42 no exame de 2010, os professores também utilizam o tempo fora da classe para tirar dúvidas dos estudantes. “Isso é o que talvez tenha de melhor no Coluni, os nossos professores são em sua maioria de dedicação exclusiva, ficam na escola o dia inteiro para, além de dar aulas, atender os alunos e as famílias, e fazer pesquisas”, afirma o diretor Hélio Paulo Pereira Filho, que também é professor de Biologia há 16 anos no Coluni. Pereira acredita que se fosse usado o modelo dos colégios de aplicação em todas as instituições de ensino da rede pública certamente seria resolvido o problema da educação no Brasil. O diretor do Coluni faz até um resumo do que acredita que falta às outras escolas. “É preciso investir na capacitação do professor, na dedicação exclusiva – parar com esse negócio de professor ter que dar aula em uma porção de escola para ter um bom salário – e em uma boa estrutura para que a escola consiga trabalhar de forma a motivar o aluno. A verdade é que as pessoas sabem o que é necessário. O que está faltando é uma soma de esforços e o governo de fato fazer o papel dele. [Deve] reconhecer que a educação precisa ser prioridade no País, que tem crescido e demanda uma quantidade enorme de mão de obra qualificada, tem que investir em educação”, sintetiza.

Enquanto o rendimento mensal de um professor de ensino médio, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, apresentados no estudo Análise das características do trabalho e da remuneração docente no Brasil, fica em torno de R$ 1.916, dificilmente os que trabalham nos colégios federais ganham menos do que R$ 3 mil. Além disso, os professores têm plano de carreira e recebem aumentos conforme as titulações de especialização, mestrado e doutorado. A remuneração atraente aliada a uma boa infraestrutura de trabalho – muitas das escolas aproveitam também os ambientes e laboratórios das universidades às quais estão ligadas – faz com que o corpo docente permaneça por anos lecionando na mesma escola, muitas vezes chegando até a aposentadoria, o que contribui para a continuidade dos trabalhos desenvolvidos e para a troca de experiências entre os mais experientes e os recém-formados.

Todos esses incentivos se traduzem em algo que anda bastante escasso entre os professores das escolas regulares: motivação. Esse é um dos aspectos citados pelo coronel de Artilharia Ricardo Souza Netto, comandante e diretor de Ensino do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva e Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH), que atingiu a terceira melhor nota no Enem entre as públicas (715,8) e também ficou entre as 30 melhores do País, como um dos fatores que explicam os bons resultados da instituição no exame: “a atuação séria, motivada e zelosa dos professores”. Além desse fator, o coronel destaca também a fiscalização ininterrupta do ensino e da aprendizagem, o que acredita proporcionar constantemente novas possibilidades de melhoria. “O processo de avaliação da aprendizagem é contínuo, padronizado e regulamentado”, ressalta. Ele explica que as avaliações de estudo, aplicadas no final de cada bimestre aos alunos, são elaboradas pelo professor, analisadas pela coordenação técnica e depois submetidas à sua aprovação.

Alunos

Um dos grandes diferenciais dessas escolas diz respeito ao nível dos alunos. Como a maioria precisa passar em exames de pré-seleção para estudar nesses colégios, com relações de candidatos por vaga que podem chegar a 30 por 1, como no caso do CMBH, o grau de conhecimento é bem diferente do que os professores das escolas regulares estão acostumados a enfrentar. Mas o que muda também é o interesse dos jovens pelos estudos. “O aluno é bem qualificado, porém mais do que isso é um aluno que já entra sabendo o que quer. O nosso aluno, em geral, estuda bastante porque sabe que se não fizer o papel dele aqui na escola não vai atingir o resultado esperado. É um aluno muito motivado. Ele pode até ter dúvidas com relação ao curso, mas já sabe que quer passar em um vestibular concorrido, em uma universidade de ponta”, relata Hélio Pereira, diretor do Coluni. Enquanto concedia essa entrevista à Profissão Mestre, Pereira observava alguns alunos estudando por conta própria no contraturno em uma mesa em frente à sua sala, cena que pode parecer rara para muitos educadores da rede pública regular que encaram diariamente o desafio de atrair ao menos um pouco da atenção dos estudantes. Por outro lado, o diretor diz que os professores precisam se manter sempre atualizados porque os alunos são bastante exigentes.

Outro detalhe importante nesses colégios é que os jovens realmente precisam estudar para passar de ano. E cada modelo de escola tem um sistema particular de notas e aprovação. Nos cursos técnicos, que são integrados ao ensino médio, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, os discentes seguem muitas das regras que funcionam para os alunos da graduação. O regime é semestral e os estudantes têm a possibilidade de assistir disciplinas em que foram reprovados como dependências, desde que não ultrapassem 11 horas-aula semanais para poderem se matricular no próximo ano. “O aluno não precisa repetir o ano inteiro, pode fazer apenas essas disciplinas, o que o incentiva a continuar os estudos”, esclarece Maria Tereza Badoch. Ela acredita que esse formato poderia funcionar melhor nas escolas regulares do que o sistema atual. “Está havendo uma falha na educação pública que desmotiva o aluno a estudar. Quando ele reprova em uma, duas ou três disciplinas é feito um conselho de classe e se o aluno não tiver dificuldades tão graves acaba passando. Então por que ele vai estudar se sabe que vai passar?”, questiona Maria Tereza, ressaltando que seu comentário é na qualidade de observadora da situação e não de especialista na área.

Se em muitas escolas brasileiras, que povoam os noticiários, a falta de disciplina e a violência são problemas recorrentes, não se pode dizer o mesmo das instituições destacadas nesta reportagem. Mesmo com turmas que chegam a 40 alunos por classe, os dilemas diários estão “longe de ser o que se vê na TV”, afirma o diretor do Coluni. No Colégio Militar de Belo Horizonte, a boa disciplina é um aspecto primordial para a permanência do aluno. Ao ingressar na escola, o estudante recebe a nota 8 relativa ao seu comportamento. Segundo o coronel e diretor de Ensino Ricardo Netto, toda ação do aluno pode gerar um fato positivo, que faz o conceito aumentar, ou negativo, em que a pontuação decresce. Se chegar a um comportamento ruim, correspondente a uma nota menor do que 3, o discente pode ser excluído da escola. “O nosso lema é educação e disciplina, por isso a disciplina tem um papel importante no CMBH”, enfatiza o coronel.

Matéria produzida pela revista Profissão Mestre. Para saber mais, acesse http://www.profissaomestre.com.br, http://twitter.com/ProfissaoMestre e http://www.facebook.com.br/ProfissaoMestre.

 

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2 Comentários
  • Marcelo 16/05/12 às 19:38
    A diferença é que para entrar nessas instituições o aluno tem que fazer uma prova, e dessa maneira eles fazem um filtro, entra somente os melhores alunos. No meu ponto de vista não são os professores e nem práticas novas etc, mais sim os alunos.
  • Ilan Marinho 13/01/12 às 13:31
    Detalhes de uma escola pública de ensino e aplicação para melhorias.

    1... Alunos não se interessam em estudar, são aprovados de ano por conta de "pontos brindes" ou usam outro aluno dedicado para passar, "cola".

    2... Professores não usam o sistema específicas para melhorar o desempenho no ENEM, como exemplo trabalhos e seminários, a prova do ENEM não levamos para casa para responder e muito menos fazemos palestras durante o exame, é somente uma prova de conhecimentos e múltipla escolha.

    3... A grande ausência de alunos e professores mas escolas, isso causa a falta de interesses de outros.

    4... Os livros são grande e pouco exemplificado, é preciso trabalhar com livros de menos volume e mais exemplificado, usar vídeo aulas em DVD, e usar simulados por mês para calcular a capacidade e resistência do aluno, pois o ENEM e cansativo e é preciso ficar atento as questões.

    5... Usar professores capacitados para área certa de estudo, tive professor que era graduado em matemática e aplicava Física durante o ano letivo.

    6... Aumentar a carga horária escolar e aplicar leis para manter o aluno em sala de aula.

    7... Trabalhos e seminários, usar esses tópicos somente para obter nota de recuperação.

    8... Trabalhar fixo no ENEM desde o início em ensino médio.

    Durante três anos de ensino médio, estudei com vinte e sete professores e somente cinco foram ótimos para criar uma boa base de ensino para alunos.

    A média de minha escola foi de 489.7pts ano passado e eu obtive média de 599.8pts esse ano, mas não consegui obter uma média acima da nota corte em cursos esse ano por causa do grande volume de candidatos do o ano passado.