''Mordomo do papa' é indiciado por vazamento de informações do Vaticano
Paolo Gabriele segue preso e pode pegar 30 anos de prisão por papel no 'Vatileaks', que revelou suposta corrupção no Vaticano
O mordomo e assistente pessoal do papa Bento 16, Paolo Gabriele, foi indiciado no caso que investiga o roubo de documentos confidenciais do Vaticano e o vazamento de informações para a imprensa. Gabriele, de 46 anos, é um dos poucos funcionários que têm acesso à parte privada do apartamento papal. Autoridades confirmaram que ele foi preso devido à posse ilegal de documentos e que ele está recebendo assistência legal de dois advogados.
A série de vazamentos na mídia italiana, apelidada de 'Vatileaks', revelou supostos casos de corrupção, má administração e conflitos internos no Vaticano.
'Pilha de documentos'
O mordomo vive com sua mulher e três filhos em um apartamento dentro dos muros do Vaticano, onde a mídia italiana disse que foi encontrada uma pilha de documentos confidenciais. "Eu confirmo que a pessoa detida na quarta-feira por posse ilegal de documentos particulares é o senhor Paolo Gabriele, que permanece detido", disse o porta-voz da Santa Sé padre Federico Lombardi, segundo a TV italiana Rai.
Como não há prisões no Vaticano, Gabriele estaria detido em uma das três salas "seguras" nos escritórios da força policial do Vaticano. Se condenado, ele poderá ser condenado a até 30 anos de prisão por posse ilegal de documentos de um chefe de Estado, que seriam provavelmente cumpridos em uma prisão italiana, devido a um acordo entre a Itália e o Vaticano.
Escândalo
A prisão de Gabriele, conhecido como "Il curvo" (o corvo), surpreendeu os ambientes vaticanos, e algumas fontes duvidam que ele seja o autor dos vazamentos, afirmando tratar-se de "um bode expiatório". Segundo uma fonte próxima ao papa, a prisão deixou o pontífice "doído e sentido".
A notícia sobre a prisão surge poucos dias depois de o presidente do banco do Vaticano, Ettore Gotti Tedeschi, ter sido derrubado por sua comissão diretora. A razão oficial para sua saída foi seu fracasso em cumprir "as funções primárias de seu cargo", disse o Vaticano. Mas, de acordo com algumas informações, ele era suspeito de ter relação com o vazamento. Tedeschi afirmou ter sido punido por sua tentativa de tornar o banco mais aberto. "Paguei por minha transparência", disse à Reuters.
O escândalo do Vatileaks domina a cobertura jornalística da Itália nos jornais, programas de TV e revistas pelo fato de terem sido vazados documentos internos altamente sensíveis do Secretariado de Estado do Vaticano, incluindo cartas pessoais do papa Bento 16, o que causou um embaraço para o pontífice e motivou a rara investigação.
O escândalo começou quando uma rede de televisão italiana divulgou cartas enviadas pelo atual núncio nos Estados Unidos e ex-secretário-geral do governo da Cidade do Vaticano, Carlo Maria Vigano, a Bento 16, nas quais denunciava a "corrupção, prevaricação e má gestão" na administração vaticana.
Em uma dessas mensagens, Vigano denunciou também que os banqueiros que integram o chamado "Comitê de Finanças e Gestão" do governo e da Secretaria de Estado "se preocupam mais com seus interesses do que com os nossos" e que, em dezembro de 2009, em uma operação financeira, "queimaram (perderam) US$ 2,5 milhões".
Outros documentos se referem a memorandos criticando o cardeal Tarcisio Bertone, o número dois do papa, e o relato de pagamento suspeitos do Banco do Vaticano.
Após a divulgação desses documentos, o porta-voz Lombardi denunciou a existência de uma espécie de Wikileaks para desacreditar a Igreja. O porta-voz anunciou que a Santa Sé levará à Justiça os autores do vazamento de todos esses documentos reservados e cartas confidenciais ao papa Bento 16, cuja publicação qualificou como "ato criminoso".
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