Planejamento e atração de investimentos industriais no Paraná

21/11/12 às 00:00

Duas decisões corporativas, anunciadas em outubro de 2012, provocaram pertinente inquietação nos meios políticos, empresariais e de formação de opinião do Paraná, amparada, no entanto, em uma precipitada interpretação de ocorrência de fuga de investimentos e migração de unidades industriais já instaladas no Estado.

A primeira deliberação abarcou a divulgação da transferência da sede do grupo japonês Nissan,  parceiro da companhia francesa Renault, do Paraná para o Rio de Janeiro, no ano de 2013. A segunda compreende a definição da organização alemã BMW de alocar R$ 1,0 bilhão na instalação de sua 1.a fábrica de automóveis no Brasil, no município de Araquari, na Região Norte de Santa Catarina, polarizada por Joinville.

Antes de mais nada, é necessário esclarecer que a plena inserção do Brasil na globalização produtiva, comercial e financeira, ao lado da consolidação do panorama macroeconômico de inflação baixa, predomi¬nante a partir de 1994, fez reacender as expectativas de impulsão das inversões produtivas. Isso abriu flancos para os diferentes entes da federação colocarem os seus trunfos – acrescidos do arsenal de benesses tributárias e financeiras, utilizado na guerra fiscal, proporcionado pelo anárquico sistema tributário preva¬lecente no País – à disposição dos empreendedores potenciais, na disputa de novos, complexos e modernos negócios.

Nesse sentido, convém reter que a capacidade instalada da Nissan no Paraná será preservada e acrescentada ao aparato físico da Renault, com a manutenção da linha de produção dos veículos Livina no Estado até 2016. A teoria da localização industrial, ensinada nas escolas de economia, categoriza procedimentos dessa natureza como desconcentração concentrada do poder decisório de diferentes unidades fabris.

Por outro lado, a mesma teoria permite um entendimento essencialmente técnico da escolha do território catarinense pela empresa alemã BMW para hospedar a planta industrial. De fato, o Norte daquele estado possui localização geográfica privilegiada em relação aos principais mercados brasileiros e do Cone Sul, saída para exportação, adequada infraestrutura de transportes e economias de aglomeração.

Os benefícios da aglomeração podem ser facilmente identificados na base  industrial diversificada e consolidada – incluindo também as atividades de suprimento de matérias, partes e componentes – e na disponibilidade de mão de obra qualificada, reforçados pela proximidade do parque metalmecânico da Região Metropolitana de Curitiba (RMC).
A respeito dessa última vantagem, é curioso notar que, na segunda metade  da década de 1970, quando o Paraná iniciava um arrojado movimento de adensamento de sua matriz produtiva, no elenco de cacifes competitivos desfrutados pelo Estado, apresentados aos empresários interessados em fincar raízes por essas paragens, figurava a curta distância que separa a RMC do polo fornecedor da área de Joinville.

Por essa ordem de ideias, parece lícito resgatar a apropriada argumentação empregada pelo governador mineiro, Eduardo Azeredo, por ocasião da manifestação da preferência da montadora Renault na fixação locacional do estabelecimento manufatureiro no Brasil, no começo de 1996, especificamente no município de São José dos Pinhais, na RMC. A recolocação da justificativa daquele importante político, nos dias de hoje, permitiria defender o caráter sensato da hipótese de a BMW ter sido conquistada por Santa Catarina e não perdida pelo Paraná.

Ressalte-se que o estado vizinho só não participou mais ativamente do ciclo de atração de projetos industriais, ocorrido no País no segundo quinquênio dos anos 1990, capitaneado pelas montadoras de caminhões, automóveis, utilitários e uma constelação de fornecedores mundiais, em razão da condição de não duplicação da BR 101 e, principalmente, do envolvimento do governador da época com os escândalos dos precatórios, aspecto que rigorosamente retirou Santa Catarina do balcão de avaliação e seleção dos investidores, dada a ausência de interlocutor político local considerado confiável.

No Paraná, é possível notar, desde o começo de 2011, a restauração contemporânea  de uma agenda programática de transformação do aparelho produtivo, levantada e conduzida criteriosamente em sintonia fina entre governo estadual e demais atores sociais, conforme os princípios clássicos do planejamento do desenvolvimento, que proporcionam, dentre outras coisas, a aproximação do curso presente com o futuro desejável.

Tal esforço vem acontecendo em linha com os preceitos da 3.a revolução industrial, multiplicados com a recente aprovação da lei de inovação, e os interesses coletivos de atenuação, ou até mesmo eliminação, das disparidades intrarregionais de geração de oportunidades econômicas e de emprego, em uma perspectiva de fortalecimento das vocações e descoberta das aptidões, de maneira pulverizada geograficamente, superando a abordagem tradicional dos distritos e áreas industriais.

Como efeito desse processo, as estatísticas correntes comprovam que o Paraná vem liderando a abertura de postos de trabalho mais nobres no Brasil em 2012, conforme revela a Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (Pimes), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e com a indústria respondendo por 24,6% do fluxo de empregos totais contra 16,3% no País, sendo 88,3% no interior, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Na mesma linha, os indicadores antecedentes propiciam a identificação de diversificado portfólio de projetos de investimentos privados, abrigado no Programa Paraná Competitivo, contabilizando cifras superiores a R$ 21,0 bilhões em 21 meses, em atendimento à demanda represada entre 2003 e 2010.

Gilmar Mendes Lourenço, é Economista, Diretor-Presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), professor do Curso de Economia e Editor da revista “Vitrine da Conjuntura” da FAE Centro Universitário e autor do livro “Conjuntura Econômica: Modelo de Compreensão para Executivos”. Foi eleito  “O Economista Paranaense do Ano de 2011” pelo CORECON/PR e vencedor do “Prêmio Imprensa”, em novembro de 2011, e do “Prêmio Imprensa – Especial Brasília 52 anos", em abril de 2012, oferecidos pela Quality TV & Jornais. Ele escreve às Quartas-Feiras neste espaço.

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