O Paraná e as potencialidades municipais

11/12/12 às 22:24 Gilmar Mendes Lourenço

É praticamente consensual a interpretação de que a economia do Paraná perdeu o trem do dinamismo brasileiro, no período 2003-2010, ao registrar recuo na participação no produto interno bruto (PIB) nacional de 6,44% para 5,76%, naquele lapso, em função, essencialmente, da combinação entre a deterioração da infraestrutura e a relação bastante conflituosa entre governo local e empresários, o que provocou a quase eliminação do Estado do mapa dos investidores potenciais.
Mas as estatísticas econômicas e sociais recentes, correntes e prospectivas, demonstram o claro esboço de uma virada de jogo, desde o princípio de 2011, consequência do cumprimento criterioso de uma pauta política atrelada ao atendimento dos anseios e interesses coletivos de transformação do tecido econômico e social do Paraná, organizada e operacionalizada, de maneira dialogada, pelos agentes públicos e privados aqui atuantes, e baseada na restauração dos preceitos clássicos do planejamento de longo prazo.
Não por acidente, o Paraná liderou a abertura de postos de trabalho (e o pagamento de salários reais) mais qualificados no Brasil, entre janeiro e outubro de 2012, conforme revela a Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (Pimes), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mais que isso, o setor fabril respondeu por 24,2% do fluxo de empregos formais totais no Estado, contra 16,6% no País, sendo 86,6% no interior, no período janeiro-outubro do corrente ano, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o que serve para corroborar a propensão à desconcentração espacial da presente fase de crescimento da economia regional.
Na mesma linha, o Estado contabilizou diversificado portfólio de projetos de investimentos industriais privados, nos últimos 22 meses, abrigado no Programa Paraná Competitivo, com cifras próximas de R$ 21,0 bilhões, com potencial de geração de mais de 115,0 mil empregos diretos, indiretos e pelo multiplicador da renda, em atendimento à demanda represada entre 2003 e 2010.
Aliás, a peculiaridade de quase perene bloqueio à concretização da intenção e programação de aporte de recursos produtivos privados no Estado, naquele tempo mencionado, torna-se mais flagrante quando se observa, em caráter preliminar, a trajetória do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), proxy do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), calculado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), com periodicidade anual e abrangência nacional, estadual e municipal, a partir das bases de dados dos Ministérios do Trabalho e Emprego, Educação e Saúde.
Essa estatística permite a representação de uma imagem sintética do grau de desenvolvimento econômico e social dos estados e municípios brasileiros, ou até do potencial de mercado ou de fatores de produção de cada um deles, por reunir desempenhos dinâmicos das variáveis emprego, renda, saúde e educação. A métrica do parâmetro geral varia entre zero e um, sendo a unidade geográfica tida como de moderado desenvolvimento, quando o indicador situar-se na faixa compreendida entre 0,6001 e 0,800, e de status nobre se o índice romper a barreira de 0,800.
Por esses critérios, em 2010 o Paraná apareceu como a segunda unidade geográfica mais desenvolvida do País (0,8427), atrás apenas de São Paulo (0,8940). Se no ano de 2000 (0,6522) o Estado estava em quarto lugar, atrás de São Paulo, Distrito Federal e Rio de Janeiro, em 2005 (0,8035) já emergia no segundo posto, em razão, primordialmente, da maturação plena dos vultosos e diversificados investimentos públicos e privados definidos e efetuados na segunda metade da década anterior.
Além disso, em 2010, 387 (97,0%) dos 399 municípios paranaenses exibiam grau de desenvolvimento de moderado para cima, sendo 27 deles (6,5%) avaliados como de alto desenvolvimento, puxados não somente por atividades com comportamentos tipicamente urbano-industriais, mas pela larga presença e operação do agronegócio e por retaguardas em ciência e tecnologia, estando estas últimas impregnadas particularmente nas universidades e faculdades estaduais e em outros centros de pesquisa. Os destaques couberam a Curitiba, Londrina, Maringá e Araucária, que, inclusive, integravam a lista dos 55 maiores IFDMs da nação.
Com índice de 0,9024, Curitiba ocupou a dianteira no Estado e entre as capitais brasileiras (vigésimo quinto maior índice do País) em 2010, por conta especialmente da impulsão dos vetores saúde, emprego e renda. Lembre-se aqui que, em 2000, Curitiba era a terceira capital mais desenvolvida (0,7386), perdendo para Brasília e Vitória, e a 165.a cidade mais importante no contexto nacional. Em 2005 (0,8510), a capital paranaense já estava no pico, sobressaindo como o 72.o município no certame nacional de graduação de desenvolvimento, graças aos pronunciados investimentos em capital social básico.
Ressalte-se que o vigor do emprego e da renda deve multiplicou-se no biênio 2011-2012, quando a RMC, notadamente a capital, experimentou as menores taxas de desemprego e o segundo maior salário médio (atrás de São Paulo, porém em empate técnico) entre as sete RMs acompanhadas pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE no País.
Ainda assim, o Estado possui enorme espaço a ser preenchido na direção da diminuição da heterogeneidade econômica e social e da produção de maior interiorização do desenvolvimento, pois, de acordo com as apurações da Firjan, divide o quarto lugar na classificação nacional com Santa Catarina, em número de municípios que registraram elevado desenvolvimento, e desfruta da quinta colocação na relação entre quantidade de municípios desenvolvidos e o total.
Em marcha análoga, o Estado estaria, também em 2010, na quinta posição na federação no Indicador Social de Desenvolvimento dos Municípios (ISDM), estimado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ancorado em informações de habitação, renda, emprego, educação, saúde e segurança, oriundas do IBGE e dos Ministérios da Saúde e Educação. Com a obtenção da nota geral de 5,51 (em uma escala de zero a dez), o Paraná ficaria empatado com o Rio de Janeiro e atrás do Distrito Federal (5,71), São Paulo (5,71), Santa Catarina (5,60) e Rio Grande do Sul (5,55).


Gilmar Mendes Lourenço, é Economista, Diretor-Presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), professor do Curso de Economia e Editor da revista “Vitrine da Conjuntura” da FAE Centro Universitário.

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