Mulheres a frente do terror

10/09/06 às 00:00 - Atualizado às 10:39 Maria Clara Lucchetti Bingemer

Surpreendentemente parece não ser apenas o frio Marcola, com sua camisa Lacoste, o rosto vincado e sua cultura não desprezível, que inclui até a Divina Comédia de Dante que está à frente do terror que assola a capital paulista.

Segundo noticia a imprensa, uma mulher – Marlene – foi quem comandou a operação "salve", que desencadeou os atentados de julho em São Paulo. Em sua casa, na Lapa, funcionava o escritório e a contabilidade da célula que abastecia de droga 51 presídios no estado.

Ali a polícia apreendeu 20 quilos de cocaína pura e embalada, ao mesmo tempo em que prendia Marlene. Denunciada por comparsas do crime organizado ao Ministério Público, Marlene teve o conteúdo de sua mensagem da operação "salve" exposto. Trata-se de impressionantes ordens sumárias de execução e violência em todos os níveis. Ali, ela instruía os subordinados sobre quais armas usar, onde colocar bombas e que lojas e estabelecimentos atacar. Em destaque, uma frase fria e sucinta: "A partir das 9 horas da noite, não estar nas ruas da capital em conjunto...Quem tiver passagem na rua a ordem é para assassinar."

Sob o comando de Marlene, São Paulo amanheceu com novos mortos em sua sinistra contabilidade dos últimos tempos. A articuladora da operação "salve" recebia por seus serviços quantia equivalente a R$ 1250,00 por semana. Porém, parece que não atuava sozinha. A advogada de Marcola, Maria Cristina, encontra-se presa por ter tido uma ligação interceptada na qual foram detectados sinais claros de corrupção e conivência com o crime.

E além delas, Carla Patrícia de Andrade aparece na denúncia do crime organizado ao Ministério Público acusada de alugar os imóveis usados pela quadrilha para funcionar como depósitos de armas e drogas.

Há alguns anos, notícias vindas do Peru escandalizavam a opinião pública internacional ao constatarem a participação de mulheres no grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Segundo as notícias, as mulheres participavam ativamente dos atos de violência cometidos pelo grupo, sendo inclusive as encarregadas de dar o tiro de misericórdia nos condenados à morte.

Agora, em nosso país aparecem mulheres desempenhando o terrível papel de aliadas da morte. Parece que a reivindicação que comandou os movimentos feministas dos anos 60, de igualdade de direitos, passa a incluir também o direito de matar e organizar a violência e a guerra, tarefa que até então era predominantemente dos homens.

Quando isso acontece é hora de ligar todos os alertas e luzes vermelhas. A vida está realmente em perigo. Se aquelas que têm inscrita em seu corpo a missão de dar, cuidar e proteger a vida, abdicam disso e comandam sofisticadas operações de extermínio, onde iremos parar?

Tanta crítica à maneira desastrada e violenta com que os homens administraram o mundo...Tanta oposição à dominação machista...Tanta denúncia de violência contra a mulher...E agora mimetizamos a prática violenta dos companheiros homens? Enquanto eles descobrem a beleza dos sentimentos, o alívio de chorar, nós empunhamos armas, fuzilamos pessoas e comandamos genocídios urbanos?

Triste de nossa sociedade se as mulheres começarem a ser inspiradoras de medo, seguindo o mais grosseiro estereótipo masculino. Triste...porque tudo indica que a vida ficará definitivamente sem cuidado, a humanidade sem carinho e o mundo sem ternura, irrespirável, impossível de viver.

Maria Clara Bingemer é autora de "Violência e Religião" (Editora PUC-Rio/Edições Loyola), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)

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