12º

Afeganistão, refém do ópio e da guerra

10/10/13 às 16:31 - Atualizado às 16:32

Doze anos atrás, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão para atacar a Al Qaeda em represália aos atentados de setembro de 2001, este já era um país esgotado por uma guerra que na verdade começara em 1979 com a ocupação soviética. Tem razão o presidente Hamid Karzai ao declarar, em entrevista dada esta semana à BBC e se referindo ao Acordo de Segurança Bilateral com os Estados Unidos em negociação para vigorar a partir da retirada das forças estrangeiras previsto para o final de 2014, que isso “causou muito sofrimento, perda de vidas e nenhum ganho, uma vez que o país não é seguro. Se o Acordo não atende nem aos nossos propósitos e interesses nem aos deles, então devemos seguir por caminhos separados.” Por seu lado o New York Times já noticiou que o Departamento de Estado se prepara para suspender conversações que não avançam e John Sopko, encarregado do programa de reconstrução do Afeganistão, confessou que muitos dos projetos em execução são insustentáveis e deveriam ser revistos. Será este o final da presença das forças da OTAN, hoje envolvendo 100 mil soldados (68% dos EUA e o restante de 49 outras nações)? Em armas contam-se, ainda, 185 mil homens do Exército e outros tantos da polícia afegã, para lutar contra cerca de 20 mil combatentes das milícias talebãs que estão em expansão desde que ficou clara a impossibilidade de serem derrotadas militarmente.

Estimativas independentes (http://nationalpriorities.org/en/) dão conta de que desde 2001 os Estados Unidos gastaram 664 bilhões de dólares no Afeganistão, um pouco menos do que os US$ 815 bilhões torrados no Iraque e do US$ 1,5 trilhão despendido em todas as guerras nas quais os americanos estiveram envolvidos no mesmo período, sempre com resultados altamente questionáveis. Considerando que além de uma multidão de subsídios a ajuda externa cobre integralmente as despesas com as Forças Armadas e com a polícia, o FMI afirma que o governo de Karzai hoje é responsável por menos de 50% do próprio orçamento.

Apesar da guerra e muito provavelmente devido a ela, as plantações de papoula continuam florescendo e abastecendo um mercado que a cada ano faz circular cerca de 4 bilhões de dólares na economia nacional. No ano passado, de acordo com a Agência da ONU para as Drogas e o Crime (UNODC) 95% dos 154 mil hectares plantados estavam concentrados nas províncias de Hilmand, Fartah e Kandahar ao sul e a ocidente na fronteira com o Paquistão e com o Irã. A região é dominada pelo Talibã que, no entanto, fatura não mais de US$ 100 milhões anuais basicamente via cobrança de taxas de proteção, o que em parte anula o argumento de que a guerrilha estaria sobrevivendo às custas da droga. Na verdade, o único ano em que houve uma drástica redução na área plantada e na produção de heroína (ópio) foi 2001, com 8 mil Ha contra 82 mil no ano precedente e 74 mil no seguinte, pós-invasão dos EUA, quando vigorou a resolução de banimento total emitida pelo governo do Mulá Omar.

Metade das 34 províncias que constituem o território do Afeganistão são consideradas “poppy-free”, ou seja, livres da papoula, mas as demais asseguram ao país a liderança mundial com 2/3 da produção. Já foi bem mais, mas ultimamente houve um recrudescimento no chamado Triângulo Dourado, de modo especial em Mianmar (25% do total) e no Laos. Se no ocidente o uso de heroína permanece estável, observa-se uma explosão de consumo na China onde o número de usuários da droga com preferência para a injetável é de pelo menos 1,1 milhão de pessoas.

Nesse cenário onde a prática de atentados terroristas é uma parte usual do dia a dia, preparam-se as eleições de abril de 2014, as primeiras em que deverá acontecer uma transmissão pacífica de um governo civil ao outro. Hamid Karzai completará dez anos na presidência e ainda não definiu com clareza a quem dará um apoio que é tido como fundamental para a vitória de qualquer dos 27 candidatos já inscritos. Em princípio o favorecido será Abdul Rasul Sayyaf, um líder pashtun (a etnia predominante no Afeganistão), ex-líder muhajedin e combatente contra as forças soviéticas, que foi o responsável pelo massacre de Afshar em 1993 quando num ataque que durou 24 horas foram despertados do seu sono e chacinados 700 membros da minoria Hazara. Sayyaf, de 67 anos, é um conservador religioso com forte resistência por parte das mulheres e dos estratos mais educados da sociedade afegã. Dentre os demais o destaque cabe a Qayum Harzai, irmão do presidente Hamid que se inscreveu à última hora, e a Ashraf Ghani, um conhecido tecnocrata de esquerda que apoiou os comunistas na época em que Sayyaf os combatia. Não será fácil convencer os votantes de que os candidatos pró-ocidente são de fato melhores que os ligados às forças talibãs. Resta a dúvida principal: qualquer governo que vier a ser eleito conseguirá sobreviver sem o suporte militar da OTAN e dos Estados Unidos?

 

Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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