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Os caminhos do algodão no Brasil

10/09/06 às 00:00 - Atualizado às 10:08   |  *Jonas Guerra

A história do algodão no cerrado brasileiro tem sido escrita por pessoas, que antes de produtores são empreendedores. Como consultor, estive em estreito contato ao longo destas últimas décadas, com a caminhada do algodão no Estado do Mato Grosso e tenho acompanhado, sempre que possível, as outras regiões produtoras no país e exterior.

Partimos de um ideal: a possibilidade de produzir fibra através de sistemas de alto desempenho, transformando o país de importador em exportador de fibra. Transformar este ideal em realidade é uma façanha que a muitos, talvez passe despercebido. Acredito inclusive, que muitos dos diretamente envolvidos talvez não tenham se dado conta da dimensão deste feito.

O Brasil, no início dos anos 90 não dispunha de infra-estrutura operacional, qual maquinário de campo e de beneficiamento de fibra nas regiões então, potencialmente produtoras. Tampouco dispúnhamos de variedades adaptadas às condições ambientais de nosso cerrado e que atendessem à colheita mecanizada. Assim, as primeiras produções do Brasil central dependeram de poucos materiais genéticos, deficientes em características que atendessem ao exigente mercado consumidor internacional, à colheita mecânica e fizesse frente ao complexo local de pragas e doenças. Apenas nestes últimos anos é que começamos a perceber um número mais expressivo de novas cultivares chegando ao mercado. Ou seja, começamos a visualizar o resultado de um longo ciclo de pesquisas em diversas instituições, que já se estende por mais de 10 anos, focado nas necessidades da cotonicultura do cerrado brasileiro.  

Ao longo deste ciclo inicial consolidamos a posição de produtores de fibra de alta qualidade e logramos um espaço no cenário internacional, inimaginável no começo desta jornada. As perspectivas para o futuro próximo, são ainda mais otimistas, visto que há um grande potencial de expansão no consumo de fibras de algodão, frente ao crescente custo das fibras sintéticas derivadas de petróleo.

Entretanto, e mesmo paradoxalmente, vivemos um momento onde a planilha de gestão do produtor é pressionada em custos que cresceram em Reais, para a comercialização da fibra em Dólares - que sofreu desvalorização - ameaçando a competitividade do algodão brasileiro.

Entendo estar na posição de expressar que a sustentabilidade do setor depende de mais tecnologia, ou seja, de um contínuo processo e aperfeiçoamento em todo o sistema produtivo. Neste sentido, avançamos muito em todos estes anos. No cerrado, saímos da estaca zero para a condição de expressivo exportador de algodão, deslocando concorrentes como a Austrália em volume comercializado. Contudo, cabe lembrar que o algodão australiano recebe ainda, um prêmio de 20% acima do produto brasileiro. Grande parte deste prêmio ligada à caracterização da fibra daquele país, considerada a melhor do mundo pela homogeneidade dos lotes.

Se houve um grande salto rumo à consolidação do Brasil como produtor de fibra de algodão, ouso dizer que este foi apenas um bom começo, pois a continuidade da expansão da cotonicultura brasileira está vinculada à expansão de sua base tecnológica.

As ferramentas de que dispomos atualmente somente permitem garantir os níveis atuais de produtividade e qualidade de fibra à custa de um grande aporte de recursos em nutrição e manejo de pragas.

As novas tecnologias que começam a chegar ao Brasil precisam caminhar a passos largos para dentro da semente. Desde as sementes que permitem uso seletivo de herbicidas totais, que minimizam a fitotoxicidade dos programas de manejo de plantas daninhas atualmente em uso, as sementes que produzem defesas biológicas pela própria planta no controle de pragas; tudo está nos conduzindo a um cenário mais promissor do que a atual realidade do cultivo de algodão.

É fundamental alertar para as conseqüências técnicas para o mal uso de qualquer tecnologia, e a biotecnologia não é exceção. Como exemplo, cito o conhecido algodão Bt, cujo gene que expressa a defesa contra a praga deve estar presente em cada planta da lavoura e somente a produção certificada, com controle de qualidade molecular pode assegurar.

Se por exemplo a mistura varietal na semente informal fizer com que a expressão do gene ocorra em 80% das sementes, vamos observar a campo uma população de cerca de 20.000 plantas por hectare suscetíveis às pragas alvo, e que não sabemos quais são! Mesmo que nem todas as maçãs destas plantas susceptíveis sejam atacadas, a perda na produtividade não compensa a redução de custos com inseticidas, possibilitada pelo uso da tecnologia Bt, pois a lavoura é heterogênea.

Este, porém não é o aspecto mais relevante.

Em uma semente pura, o gene estará presente e funcionando nos dois alelos do genoma, a “pleno vapor”, ao passo que em sementes informais, na medida em que há sementes sem o gene, há também sementes com o gene em apenas um alelo. Isto leva à uma expressão variável do gene, que será responsável por uma pressão variável de seleção de pragas, gerando um potencial de resistência, que poderá colocar a perder a tecnologia, em evidente prejuízo à cotonicultura do país.

Ademais, a presença de fibra danificada pela praga, acarretará queda na classificação do algodão produzido nesta área.

E finalmente, a equipe técnica não terá como confiar na tecnologia empregada, num cenário de expressão variável do gene, dificultando enormemente o manejo e pragas.

A pesquisa indica que existe uma alta taxa de cruzamento entre plantas de algodão. A pureza varietal não é controlada em campos de produção informal de sementes, que tampouco dominam ferramentas de controle de qualidade molecular, o que coloca em risco a implementação de forma eficaz das novas tecnologias, que apontam para garantir a sustentabilidade imediata da produção do algodão no Brasil.

Há relatos de sementes de origem desconhecida sendo cultivadas, com expressão pouco acima de 50% de um gene específico. O uso de uma semente como esta, mascara a ocorrência de pragas, inviabilizando um manejo tecnicamente coerente.

A busca de novas tecnologias versus a lentidão regulatória tem levado produtores a ações individuais que podem por em risco o processo produtivo e a evolução da qualidade de nossa fibra.

Já estamos com atraso em relação a países competidores na disponibilização destas novas tecnologias a campo. Entretanto não é através de seu uso inconseqüente que vamos garantir a sustentabilidade de nossos sistemas produtivos. Mais que um gene, precisamos de variedades elite com este gene, em sementes puras. Apenas iniciamos a geração de cultivares melhor adaptadas para o cerrado brasileiro. Exemplo claro disso, é a grande parcela de produção ainda baseada em materiais sensíveis ao mosaico das nervuras, também conhecido como doença azul, e há muito mais por melhorar na genética utilizada.

A ascensão tecnológica da cultura do algodão é condição essencial para a sustentação e expansão da produção de fibra no cerrado. Expansão esta em quantidade produzida, mas fundamentalmente em qualidade para o seu melhor desempenho na indústria, cliente e usuário de nosso produto.

Somente com ações integradas de todo o setor algodoeiro do país poderemos maximizar nosso acesso a novas tecnologias e novos cultivares, garantindo, desta forma o crescimento de nossa cotonicultura e a inserção sustentável do Brasil no mercado internacional como produtor de fibra.

*Jonas Guerra é consultor da Guerra Consultoria. 

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