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Amor e carinho são essenciais na hora da cama, diz pesquisa

A liberalidade sexual e a facilidade em encontrar parceiros convivem com uma curiosa busca por mãos dadas

23/05/07 às 00:00   |  Giuliana Reginatto - Agência Brasil
São Paulo, 23 (AE) - Ele diz que a mulher parece uma adolescente, com suas surpresinhas eróticas, lingeries provocantes e intermináveis programas a dois. Ela reclama que o marido trabalha demais, chega tarde e dorme no sofá. Dinorah (Isabela Garcia) e Gustavo (Marco Ricca) são apenas personagens da novela das 20 horas da Globo, mas ilustram muito bem os resultados obtidos pela pesquisa "Bem-Estar Sexual Mundial", realizada em 26 países - entre eles o Brasil - pela famosa empresa de preservativos Durex.

Sim, o mundo continua romântico. A liberalidade sexual e a facilidade em encontrar parceiros convivem com uma curiosa busca por mãos dadas, flores na cama e jantar à luz de velas - exatamente como sonha Dinorah. Quando questionados sobre os elementos que poderiam melhorar a vida sexual do casal, 39% dos 26 mil entrevistados apontaram romance, carinho e amor como essenciais. Logo depois vem um pedido por menos estresse e fadiga, com 37% dos votos.

POR AQUI - No Brasil, a sede por paixão é ainda mais elevada: 40% das pessoas esperam mais romantismo do companheiro. O item campeão de críticas no País é o estresse, com 57%. De fato, um estudo realizado recentemente pela Isma (International Stress Management Association) atestou que 70% dos brasileiros sofrem de estresse no trabalho. É por isso, provavelmente, que Gustavo (personagem de Marco Ricca) sempre desmonta no sofá no final do dia, mesmo estando diante da mais decotada e transparente camisolinha.

Nos EUA, que segundo a estimativa da Isma, apresenta níveis de estresse bem semelhantes àqueles verificados no Brasil, o excesso de trabalho está diretamente associado a fracassos matrimoniais. Levantamento realizado pela Universidade de Cornell apurou que mulheres à beira do divórcio trabalham em média 283 horas a mais do que aquelas envolvidas em relacionamentos estáveis.

Segundo o autor do estudo de Cornell, o economista Kerry Papps, as casadas tendem a trabalhar mais quando percebem que o casamento está perto do fim para assegurar que terão meios para sobreviver sozinhas. "Se uma pessoa está infeliz, ela tende a se jogar no trabalho e na vida social em torno dele, como uma maneira de se distrair", comenta a psicóloga de casais Denise Knowless.

EXCESSO DE TRABALHO - Trabalhar à exaustão foi o jeito que o personagem Gustavo encontrou para fugir do apetite insaciável da mulher. Para garantir, ele ainda estica o expediente no bar, com direito a rodadas de chope com os amigos. Tudo, é claro, para não correr o risco de encontrá-la acordada - e cheia de amor para dar - em casa.

Estresse e cansaço têm estreita relação com a perda de libido. E esta foi a queixa principal de 27% dos brasileiros entrevistados pela Durex. Outros 30% garantem que sentem dificuldade em manter a ereção durante o ato sexual. Vale ressaltar que, pelo mundo, a taxa registrada para a diminuição do apetite sexual é de apenas 19%.

Mesmo cansados, estressados e carentes, os brasileiros estão entre os povos mais sexualmente ativos do mundo. Os brasileiros praticam sexo, em média, 145 vezes ao ano. E perdem apenas para os gregos, cuja freqüência chega a 164 vezes.

Além de constante, o sexo em território nacional é demorado, com duração média de 21 minutos por relação. Mais uma vez, a nação fica com o bicampeonato: só os nigerianos dedicam mais tempo ao ato sexual, que por lá costuma se estender por 24 minutos. Não é à toa que naquele país 67% das pessoas se declaram muito satisfeitas com a vida sexual que levam. No Brasil, o índice cai para 42%, um número abaixo da média mundial - que fica em 44%.

POR MAIS QUALIDADE - A pesquisa intriga especialistas em sexualidade no Brasil. Afinal, se temos uma atividade sexual intensa e dedicamos grande parte de nosso tempo ao sexo, por que há tanta insatisfação na cama? Seria culpa apenas do estresse moderno e da falta de romantismo?

"A pesquisa demonstra que bom sexo não acontece por acaso. Mesmo estando entre os povos que mais fazem sexo, os brasileiros devem repensar outros aspectos da vida sexual. Sair mais com os parceiros, tirar o estresse da rotina e acrescentar um pouco de diversão e romantismo ao dia-a-dia podem melhorar os níveis de satisfação", explica o representante da Durex, Peter Roach.

Para o psicólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr., que preside a Sociedade Brasileira para Estudos da Sexualidade, a questão sexual no Brasil é um problema cultural. "Temos um discurso supervalorizado do sexo e nos orgulhamos disso, mas ainda hoje transamos para contar para os amigos e não para o nosso próprio benefício. O estresse depende da compreensão que se tem de mundo Na verdade, isso representa uma tentativa de pôr a culpa em algo para nos livrar da responsabilidade", diz ele.

Cientista em saúde pública pela Universidade Johns Hopkins, Miguel Fontes destaca que a preocupação com as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), embora seja válida, intimida abordagens mais afetivas sobre o sexo. "Temos grande quantidade de sexo, mas não temos qualidade. Enfatizar a prevenção de doenças, como a aids, sempre foi mais urgente do que discutir o prazer e a qualidade da relação", diz o especialista.

A pesquisa da Durex identifica a demanda do brasileiro por informações sobre sexualidade. Entre os consultados, 42% garantem que gostariam de obter mais conhecimento sobre como sentir prazer. Pelo mundo, só 26% se consideram pouco informados sobre o assunto. "Já atendi dois casais adultos, ambos com curso universitário, de classe média alta, que perguntavam bem constrangidos: ‘mas, na hora H, onde a gente coloca?’ (em referência ao órgão sexual masculino). Ainda hoje, muita gente tem dificuldade para falar sobre sexo", aposta Rodrigues.

O estudo também denota o interesse do brasileiro por práticas pouco usuais, como o sadomasoquismo. Apenas 3% se declararam praticantes, mas 10% confessaram que adorariam experimentar a técnica. Outros 15% revelaram que gostariam de praticar sexo anal, enquanto 18% manifestaram vontade de incluir fantasias sexuais na rotina sexual.

O levantamento também mostra que o índice de satisfação sexual se relaciona ao grau de confiança que se tem no parceiro. Entre as brasileiras que se declararam extremamente satisfeitas no sexo, 99% garantem que se consideram respeitadas pelo parceiro no relacionamento. Entre os homens, o índice é de 94%. E respeitar, muitas vezes, passa pelo entendimento de que o outro precisa, sim, ouvir uma romântica declaração de amor. Nem que seja um simples elogio à camisola nova.

BOXE

OS NÚMEROS DA PESQUISA:

79%

Dos brasileiros garantem que sexo é muito importante, ante 59% da média mundial

21 min

É o tempo do sexo no Brasil. A média é superior aos 18 minutos gastos no mundo

145

Vezes por ano é a freqüência sexual no Brasil. O índice mundial fica em 103

26%

Dos brasileiros declararam que já tiveram alguma DST. O índice é bem acima da média mundial, que fica em 15%. Não é à toa que unidades de saúde exploram mais o uso de preservativos do que a satisfação sexual dos casais

57%

Dos brasileiros dizem que estresse e fadiga são os grandes inimigos do sexo. Outros 42% gostariam de ter mais tempo com o parceiro e 42% reclamam de falta de informação. Só 22% sentem falta de um novo parceiro
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