O novo futebol brasileiro

08/07/15 às 22:55 - Atualizado às 10:03 Edilson de Souza

Com muito atraso, quase um ano após o vexame na Copa do Mundo, a Confederação Brasileira de Futebol resolveu consultar profissionais que entendem do esporte mais popular do mundo tentando encontrar uma solução para o declínio técnico que vive o futebol brasileiro. São várias as idéias para resgatar e reconstruir o nosso combalido futebol. Uns querem alterar o sistema de formação nas bases dos clubes, outros querem a padronização do tipo e tamanhos dos gramados. Tem até gente que pede uma mudança na Lei Pelé.

As propostas, ainda bem, também passam pela ideia de qual modelo de jogo deveremos adotar para enfrentar as grandes seleções mundiais. Digo ainda bem pelo fato de atentarem ao motivo principal dessa discussão: vamos conviver com uma eterna cópia dos europeus ou iremos resgatar o verdadeiro futebol brasileiro que trilhou pelos caminhos das vitorias e do jogo bonito? Particularmente, entendo que copiar os europeus nunca e jamais dará certo.

Nós possuímos a nossa própria identidade futebolística. Se fomos pentacampeões, nos transformamos nos maiores vencedores em termos de mundiais utilizando nossos talentos, por que resolvemos mudar? Por outro lado, quando ousamos copiar sistemas europeus, fizemos fiascos. Andamos na contramão.

Concordo que a solução está na formação. As bases dos clubes são e sempre foram os grandes celeiros de nossos craques. Contudo, algo se perdeu no meio da estrada. Há necessidade de privilegiar a técnica em detrimento da força física. É preciso que haja uma fixação de jogadores no Brasil antes de jogarem e serem formatados mentalmente na Europa. Quando falo em formatação mental, me refiro não apenas aos sistemas (quadrados) de jogo, mas sim da realização profissional e financeira do atleta.

Alguns modelos adotados na formação de atletas — dentro dos clubes e/ou nas escolinhas de futebol — contribuem em muito para o empobrecimento técnico dos futuros jogadores. Creio ser totalmente equivocado ter pessoas despreparadas para ensinar como se deve jogar futebol. Penso ser muito mais produtivo que, ao invés de professores de educação física (que podem eventualmente ser), as bases sejam administradas por ex-jogadores (desde que preparados para a função, obviamente).

Outro equivoco é trabalhar com a garotada pensando e jogando para ganhar títulos. Esquecem-se desta maneira os princípios básicos da formação: descobrir talentos. De outra forma, privilegia jogadores de porte físico avantajado, muita força física (aliás, é o que procuram os agentes do exterior) e a técnica esvai-se pelo ralo. Entretanto, ao buscar "craques" urgentemente, as qualidades técnicas que deveriam ser aprimoradas são deixadas de lado. Assim, quando o atleta chega à fase adulta dará esse vexame que verificamos atualmente por ausência total de fundamentos básicos para pratica do futebol.

Entretanto, não vejo que empresários de futebol que investem para descobrir e fabricar atletas estejam errados, não os critico. Afinal, o principal objetivo é revelar um jogador e produzir receita rapidamente. O trabalho é realizado em ritmo de produção "Fordeana". Errados estão os clubes que transferem as suas responsabilidades para terceiros e depois reclamam que não têm participação dos direitos de os jogadores formados.

É necessário criar novamente identidade em nossos atletas. Vale lembrar que antigamente um jogador de futebol sonhava em jogar na Seleção Brasileira. Hoje eles desprezam a seleção e seus principais objetivos são promover rapidamente suas independências financeiras. Até ai nada contra, porém, se esses são os objetivos, jamais podem ser chamados para defender a camisa canarinho sem ter o mínimo de comprometimento. Precisamos mudar os pensamentos e os ideais dos nossos futuros jogadores. Só assim voltaremos a ser respeitados no cenário mundial do futebol.

 

Edilson de Souza é jornalista e sociólogo

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