Mauro Mueller: "Um Caipira em Zurique"

13/01/16 às 00:00 - Atualizado às 22:09 Mauro Mueller | falecomomauro@yahoo.com.br

Em Zurique, na Suíça, Messi estava numa festa entre amigos, confraternização de todos os anos e para variar o costume dos dois anos anteriores, tirou Cristiano Ronaldo da jogada e levou seu quinto troféu de melhor jogador do mundo. Três vezes melhor do mundo, Cristiano Ronaldo gosta de ostentar seu life style, gosta muito da glamourização de seu trabalho, tem porte atlético pela profissão que exerce e se utiliza do expediente em todos os momentos em que aparece em público — isso quando não se olha no telão, seja em Zurique, ou nos estádios.

Neymar já dever ter faturado na Europa algo em torno de 400 milhões de euros. Imagine você que Bale, do Real Madrid, que nem apareceu na foto dos melhores do mundo, ganha 11 milhões de euros anuais. Bem diferente da realidade de Fred, do Fluminense, que ganha um salário muito acima da média normal de um jogador brazuca, do alto de seus R$ 9 milhões anuais. Imagina então: como estaria a cabeça de um jogador que até pouco tempo estava ajudando a família em uma lanchonete porque estava sem emprego? Este jogador fecha com um clube para jogar o Campeonato Goiano, faz um gol antológico por um time modesto de Goiás e então é chamado a participar de um evento onde estaria perto de grandes nomes da bola, os maiores jogadores da Terra, jovens de vinte e poucos anos que já acumulam verdadeiros impérios em fortuna, casas, carros, geram empregos e levam entretenimento de futebol aos milhões de espectadores pelo mundo. Coisas que só se conversa entre irmãos na fantasia do faz-de-conta, da hipótese, da utopia. E então Wendell Lira estava ali, reunido com eles para rir da vida e descontrair, como um deles, um companheiro de profissão que tinha, no mesmo período e mesma idade, realidade bem diferente da que vivem jogadores como Marcelo, Thiago Silva, Pogba e Sergio Ramos.

Onze seriam eleitos os melhores em suas posições e um deles levaria o troféu de melhor do mundo. Este rapaz de Goiás poderia levar um troféu daqueles que Messi tem cinco em casa. De repente, este rapaz de 27 anos de idade está sentado na mesma platéia que está Messi, Neymar, Daniel Alves, Iniesta, Cristiano Ronaldo, Neuer, pessoas que ele só via em sua televisão, ou no vídeogame, e que jamais sonhava em vê-los sendo um deles. O rapaz é indicado por ter feito um belo gol jogando por um modesto clube do interior de Goiás. O nome que se ouve é o de Wendell Lira, que tem um salário de R$ 36 mil por ano. De volta ao Brasil com o troféu Puskas na bagagem, vai voltar à sua realidade de atacante no Vila Nova. Deverá conhecer algum político fanfarrão para fazer marketing pessoal, vai a eventos em que poderá aproveitar estadias em bons hotéis, dar entrevistas e virar celebridade por algum tempo. Se tiver um bom empresário, poderia se transferir fácil para um clube dos Emirados Árabes, Azerbaijão e jogar uma temporada com um salário melhor. Um golaço bateu à porta de Wendell Lira. Basta que a sorte se transforme em oportunidade, pois ao que tudo indica, ele merece pela luta de um brasileiro entre tantos que “sofrem” do sonho de se tornar um grande nome do futebol mundial. Pelo menos por alguns dias.

Mauro Mueller é apresentador do Show de Bola da Rede Massa, radialista e ator

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