Águas de março levam o governo Dilma

31/03/16 às 21:06

Lá se foi o mês de março e com ele o verão de 2016, levando consigo o que restou do governo Dilma Rousseff. Desde o começo os sinais eram preocupantes. No segundo dia um toró arrasador desabou sobre o Beira Rio em Porto Alegre, alagando a multidão que não arredou pé, pois ali estava para assistir o último show brasileiro dos Rolling Stones. Dia 10 foi pior: 16 mortos causados pela tempestade que atingiu a Grande São Paulo. E treze dias depois chegou a vez do Rio de Janeiro quase naufragar.

Como resistir à força das águas? Logo na primeira 6ª. feira a Aletheia - 24ª. Fase da Operação Lava Jato – foi buscar Lula da Silva em sua casa de São Bernardo, conduzindo-o para responder por acusações de recebimento de vantagens indevidas numa dependência do Aeroporto de Congonhas, ao que se seguiram dois de seus filhos e Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula. Nota da Polícia Federal dizia em relação ao ex-presidente que “de fato, surgiram evidências de que os crimes o enriqueceram e financiaram campanhas eleitorais e o caixa de sua agremiação política”. Pouco antes (na 23ª. fase), o marqueteiro das campanhas presidenciais do PT, João Santana, tivera de pegar o avião desde Santo Domingo junto com sua 7ª. esposa, Mônica Moura, indo direto para o cárcere em Curitiba, acusados entre outros eventos de receberem R$ 7,5 milhões na offshore panamenha Shellbill, provenientes de desvios de contratos da Petrobrás e facilitados pelo lobista Zwi Skorvicki, igualmente detido.
Multidões calculadas em 3,6 milhões de pessoas (a maior manifestação oposicionista já realizada, superando os 2,4 milhões presentes em 19/3/2015) tomaram as ruas em 300 municípios de todas as Unidades Federadas do país no dia 13, bradando slogans contra o governo. Cinco dias depois o PT reagiu com manifestação de apoio, mas reuniu um número bem menor de pessoas, enquanto em Brasília o ministro Teori Savascki do STF homologava uma abrangente e explosiva delação premiada do senador Delcídio do Amaral.
A revelação do teor de uma ligação feita pela presidente ao telefone grampeado de Lula mostrou que a tentativa de nomeação do ex-presidente como ministro da Casa Civil visava principalmente a conferir-lhe foro privilegiado e, assim, fugir da jurisdição do juiz Sérgio Moro na 1ª instância. Com isso, o juiz Gilmar Mendes do STF acatou mandato de segurança apresentado por partidos da oposição, impedindo Lula de assumir o ministério e devolvendo seus processos ao foro de Curitiba. Pedidos das instâncias governamentais para anular a decisão de Mendes não foram acatadas no Supremo, dessa feita pelos ministros Luiz Fux e Rosa Weber. Ao mesmo tempo a ministra Dilma Macerbi do STJ negou liminar da AGU que visava concentrar todas as ações contrárias à nomeação de Lula na Justiça do Distrito Federal.
A Operação Lava Jato, iniciada em 13 de março de 2014, completou dois anos com um saldo de R$ 2,9 bilhões devolvidos aos cofres públicos e 93 condenações criminais formalizadas. Em sua 26ª. fase, denominada de “Xepa”, a Lava Jato descobriu a existência de um Setor de Operações Estruturais na empresa Odebrecht, cuja função era distribuir propinas a partidos e a um grande número de políticos não exclusivamente pertencentes à base do governo.
Contudo, o mês ainda não havia terminado. Faltava a decisão da mais oportunista de todas as agremiações políticas brasileiras, o PMDB, que no dia 29 aprovou por aclamação, em reunião que durou apenas três minutos, o rompimento oficial com o governo Rousseff, saudado aos gritos de “Fora Dilma”. Nas palavras do senador Romero Jucá (1º Vice do partido), “a partir de hoje, nessa reunião histórica, o PMDB se retira da base do governo”. Ninguém acredita que assim de fato será, mas com isso os sete ministros e os ocupantes de milhares de cargos na administração federal deveriam abrir mão de seus postos, liberando-os para que sejam negociados com outros, numa tentativa de reconstituir uma base minimamente suficiente para impedir a aprovação da proposta de impeachment em tramitação final no plenário da Câmara.
O Legislativo, a essas alturas, permanecia com Eduardo Cunha e Renan Calheiros na presidência de suas Casas (Câmara e Senado, respectivamente), ambos como alvos de diversos processos por corrupção e desvios de conduta. Já a presidente da República cada vez mais via restringir-se sua influência e campo de ação. Com o apoio de apenas 10% da população segundo o Data Folha mais recente, ela já não faz discursos públicos ou pela TV, não se expondo para evitar as vaias, os buzinaços e os panelaços que sistematicamente passaram a saudá-la onde quer que apareça ou se pronuncie. Uma restrição adicional surgiu à última hora com a identificação do vice Michel Temer com a oposição. Dilma suspendeu viagem aos Estados Unidos por receio do que poderia acontecer caso ele assumisse provisoriamente sua cadeira. Agora, com a chegada do céu de brigadeiro do outono, será que o pesadelo vai ser superado? (VGP)

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