Desodorante é de uso coletivo na Venezuela de Maduro

26/04/16 às 15:05

Isso sim é que é crise: em Caracas, dividindo espaço com os ambulantes que nas calçadas vendem de tudo que ainda existe no país, em plena Avenida Urdaneta junto ao Ministério das Finanças (na verdade no chamado Município Libertador, um bairro central da área metropolitana), formam-se filas principalmente de homens para receber uma pincelada de desodorante roll-on.

Conforme noticiado na revista Semana, a reporter Nitu Perez surpreendeu-se com a extensa fila na calçada e, curiosa, perguntou: "Que vendem aqui?" A resposta: "Por 20 bolos le pasan el desodorante de bolita en el sobaco" (por 20 bolívares - o equivalente a R$ 7,00- passam-lhe o desodorante roll-on na axila).
Assim como cremes e escovas dentais, sabonetes, papel higiênico e mil outros artigos de higiene pessoal, os desodorantes há tempos desapareceram das prateleiras dos mercados e das farmácias venezuelanas. É preciso criatividade, de um lado para ganhar algum dinheiro e, de outro lado, para manter-se perfumado.
Não muito distante, no Edifício Centro Simón Bolívar, em janeiro último tomou posse a jovem Dra. Luisana Melo Solórzano para comandar o Ministerio del Poder Popular para la Salud. Cercada de problemas por todos os lados, a jovem ministra não tem tempo para preocupar-se com o que se passa por debaixo dos braços dos venezuelanos. Contudo, profissionais da área sanitária se espantam com a novidade e alertam para os perigos que a prática do uso coletivo de desodorantes podem trazer para a população.
Desodorantes têm em sua composição triclosan como agente antibacteriano e derivados do alumínio como antitranspirante. Principalmente pelo uso inadequado ou demasiado do alumínio têm sido relacionados inclusive a casos de câncer de mama, e seu uso comum por várias pessoas pode facilmente transformar-se em veículo de transmissão de infecções fúngicas e bacterianas. A doença mais comum é a foliculite - uma irritação dos folículos capilares da axila. A fila anda rápido, pois ninguém tem muito tempo a perder e a sorridente garota encarregada das pinceladas age com certeira precisão. Não há como higienizar a "bolita" entre um freguês e outro, de forma que aquilo que está no sovaco de Juan se transfere para a axila de Pedro e Manuel enquanto os 20 bolos vão caindo no caixa e enchendo os bolsos dos inovadores comerciantes na sua nobre missão de combater o excesso de suor dos venezuelanos. Entre um cliente e outro, lança um rápido olhar de esguelha para o imenso cartaz bem à sua frente onde o presidente Nicolás Maduro, de banho bem tomado, ergue o punho em posição beligerante contra os inimigos do chavismo.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional. Doutor em Saúde Pública

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