YALA SENA E FERNANDA ATHAS
TERESINA, PI, SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma menina de 10 anos morreu nesta quinta-feira (28), em Teresina (PI), com suspeita de intoxicação e marcas de torturas.
Segundo o Conselho Tutelar de Teresina, ela pode ter sido vítima de possível ritual de magia negra.
Além da morte da garota, o conselho investiga denúncias de torturas de outras crianças em rituais religiosos. São cerca de 20 casos no total, que vieram à tona após a internação da menina, diz o órgão.
Ela tinha dado entrada no HUT (Hospital de Urgência de Teresina) havia 15 dias em coma profundo, com a cabeça raspada e lesões pelo corpo, a maioria com cicatrizes em forma de cruz. O Conselho Tutelar recebeu a informação de que a garota participou de um “ritual de purificação” em um terreiro no povoado Flor do Campo, na zona rural de Timon, no Maranhão.
Diretor geral do HUT, o médico Gilberto Albuquerque, que atendeu a garota, informou que a paciente apresentava sinais de intoxicação, estava desnutrida e com insuficiência renal. Tinha ainda várias lesões nos braços, tórax e pernas com sinais de cicatrizes, maus-tratos e envenenamento, disse ele.
A menina passou 15 dias internada no hospital e morreu na manhã desta quinta de falência múltipla dos órgãos.
O corpo foi encaminhado para o IML fazer uma autópsia e o resultado será enviado para a Polícia Civil. A Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente abriu inquérito e apura as causas do crime.
EXAMES TOXICOLÓGICOS
A conselheira tutelar Socorro Arraes, que ouviu o depoimento da mãe, informou que a criança bebeu uma “garrafada”, uma mistura de remédio caseiro.
O líquido foi encaminhado ao laboratório para a substância ser analisada. O resultado ainda não saiu.
“O relato da mãe é que a menina participou de ritual de purificação e teria pago R$ 500 para curar a filha de uma asma. Ela teria dado um lambedor, uma espécie de garrafada, com folha de manga e açúcar.”
A Polícia Civil solicitou exames toxicológicos e de lesão corporal.
A polícia apura ainda se houve abuso sexual contra a vítima. Na quarta (27), a direção do HUT solicitou nova perícia para investigar a suspeita. Segundo a direção do hospital, a garota apresentou papilomas (verrugas) nas cordas vocais, que podem ser transmitidas sexualmente através do vírus HPV.
A mãe da menina não falou com a imprensa após o depoimento ao Conselho Tutelar.
OUTROS RITUAIS
Segundo a juíza da 1ª Vara da Infância e Juventude Maria Luiza de Moura Melo, os rituais aconteciam em uma chácara há 20 km de Teresina, no município de Timón, no Maranhão, na divisa com o Piauí.
Como a garota morta, as crianças apresentam a cabeça raspada e cicatrizes pelo corpo em formato de cruz -cortes superficiais na pele feitos possivelmente com lâminas de barbear. O conselho tutelar conversou com um casal de irmãos, de oito e dez anos, que teriam passado pelos mesmos rituais que a menina morta.
“As crianças estavam com medo de ficarem igual à menina no hospital em coma. Elas relataram que ficaram sete dias deitadas em uma esteira de palha, levantando apenas para ir ao banheiro. Além disso, elas levavam chicotadas nos ombros e nos pés”, afirmou a conselheira Socorro Arraes.
Segundo o conselho tutelar, as crianças frequentavam o mesmo centro religioso e algumas eram das mesmas escolas. “Nós não estamos questionando a religiosidade, mas sim atos de tortura. Nenhuma religião corta uma criança, isso pode ser crime de tortura”, diz.