Britânicos e espanhóis, confusos, voltam às urnas – Khan eleito em Londres

11/05/16 às 21:44

A 5ª. feira, 5 de maio de 2016, foi dia de eleições municipais no Reino Unido. Como tudo por lá, cada qual opta pelo regime eleitoral que lhe pareça mais adequado e cada qual se adapta do jeito que pode ao governo que tem. Trata-se da escolha de novas Assembleias, mais ou menos correspondentes às Câmaras de Vereadores no Brasil. Em alguns casos, o presidente eleito é, na verdade, o prefeito, o Major. Assim, Londres, Liverpool, Bristol e Salford estão de fato envolvidos numa séria disputa para escolher quem comandará suas cidades nos próximos 4 anos.

Londres é a situação mais crítica e ao mesmo tempo a mais curiosa. O atual prefeito, Boris Johnson, é um “tory”, ou seja, do Partido Conservador,e tem se posicionado a favor do Brexit, ou seja, da saída do Reino Unido da Comunidade Europeia. É tido como um provável sucessor de David Cameron, o primeiro ministro, que tem feito campanha pela permanência. O candidato dos conservadores, Zac Goldsmith, propôs construir 50 mil novas moradias (o grande problema da cidade), combater a poluição e tornar as ruas mais seguras. Ao final, venceu o favorito, Sadiq Kahn, um jovem de 45 anos, filho de um motorista de ônibus paquistanês e de uma costureira, cujo programa inclui o congelamento por 4 anos das tarifas do sistema urbano de transportes e o combate a extremistas. Dentre os demais nove candidatos houve de tudo um pouco, desde os verdes e os adeptos da equiparação de gêneros (Partido da Igualdade Feminina), até Lee Harris, do grupo “Canabis is safer than alcohol” (a maconha é mais segura que o álcool).

Mister Khan é um muçulmano moderado que defende a integração do continente europeu. Ele conseguiu superar a violenta campanha promovida pelos seus adversários que o acusam de alianças com o terrorismo, tentando fortalecer o sentimento de islamofobia que, no entanto, tem agora uma enorme chance de diminuir ou ser controlado. Ao contrário do que acontece nas eleições nacionais em que é preciso ter nacionalidade britânica para votar, no pleito municipal basta ser residente na cidade, o que transforma a vasta comunidade de estrangeiros (em especial os asiáticos) em eleitores seguros de Khan.

O trabalhista Joe Anderson em Liverpool e o independente George Ferguson em Bristol virtualmente asseguraram suas reeleições, e logo no 1º turno. Pelo sistema eleitoral inglês cada eleitor deve marcar uma 1ª. e uma 2ª. opção. Caso nenhum dos candidatos alcance 50% dos sufrágios, a 2ª. opção dos que preferiram os candidatos perdedores é somada aos votos dos dois primeiros, formando um novo total pelo qual o ganhador passa a ser o prefeito. Assim, em Londres no chamado 1º turno os trabalhistas de Sadiq Khan tiveram 44% dos votos contra 35% de Goldsmith. Com o acréscimo dos votos em 2a. opção, o escore final passou a ser de 57% x 43%, com o que Khan é definitivamente o novo prefeito da city de Londres.

Outro drama é vivido pelos espanhóis. Quatro meses depois de infrutíferas tentativas de formar um governo de coalisão, o rei Felipe VI (que substituiu a Juan Carlos) dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições para 26 de junho próximo. O fracasso não foi apenas de Mariano Rajoy, líder do PP, Partido Popular (1º Ministro desde 2011), pois nem mesmo a aliança entre o tradicional PSOE (Partido Socialista Obrero Español) e a nova agremiação surgida dos protestos de rua, o Podemos, conseguiu concretizar-se, principalmente porque estes são favoráveis à independência da Catalunha. A outra possibilidade “natural” seria a participação da agremiação liberal e situada mais à direita no espectro político nacional, o Ciudadanos, no governo junto com o PP, mas seus dirigentes têm dito que nunca se juntarão a Rajoy que é acusado de corrupção.

Forçosamente o governo espanhol tem de ser exercido por uma coalisão partidária, pois a divisão é tal que nenhum dos quatro partidos alcança maioria confortável que lhe permita de fato sobrepujar os demais, nem pode ser descartado, pois que possui pelo menos 20% de apoio popular. O PP que deve, uma vez mais, triunfar no pleito de junho, terá de contentar-se com não mais de 32% dos votos.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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