O doping soviético

27/07/16 às 18:28

Vladimir Putin descuidou-se e deu um passo em falso, exatamente no terreno em que mais se gaba como o protótipo do moderno super-homem soviético, o da cultura física. Guindado em 1998 por Boris Yeltsin a chefe do então recém criado FSB - o Serviço de Segurança Federal russo que substituiu a KGB -, desta feita precisou da colaboração de Vitaly Mutko, o eficiente Ministro dos Esportes, para idealizar e levar à prática o que Thomas Bach, presidente do COI, o Comitê Olímpico Internacional, chamou de “sistema de doping promovido pelo Estado” e “um ataque sem precedentes à integridade do esporte”. No entanto, foi esse mesmo COI que no undécimo minuto o salvou do gongo ao desprezar a recomendação da WADA – Associação Mundial Antidoping – de exclusão total da delegação russa dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Saindo pela tangente, repassou a cada Federação esportiva a incumbência de testar os competidores, tarefa impossível de ser cumprida às vésperas dos Jogos. 

O uso de anabolizantes à base de testosterona para incrementar o desempenho muscular de atletas era prática useira na ex-União Soviética. Desde sua descoberta no início dos anos 1970 pelo químico letão Ivars Kelvins, o meldonium - medicamento para problemas cardiovasculares comercializado com o nome de mildronate - virou o cura-tudo das farmácias do leste europeu até ser proibido em janeiro deste ano pela WADA como substância dopante e interromper a carreira da tenista Maria Sharapova e de muitos outros atletas.

Mas, para os Jogos de Inverno de Sochi em 2014 Putin precisava de algo mais. Havia que impedir o terrorismo checheno e, de quebra, vencer a competição. Então, as coisas saíram do controle. Um minucioso e eficaz esquema de doping foi executado em sete etapas: 1) o atleta tinha a urina (limpa) coletada previamente; 2) a urina era congelada e armazenada; 3) o atleta era “vitaminado” com anabolizantes e EPO (Eritropoyetina, hormônio proteico que produz mais glóbulos vermelhos); 4) urina era coletada normalmente após cada prova e guardada no laboratório; 5) à noite as amostras positivas para o doping eram retiradas do laboratório por um agente do FSB que se fazia passar por encanador; 6) trocava-se a amostra “positiva” pela “negativa” previamente coletada, sem deixar digitais; 7) a amostra de urina “negativa” seguia para o exame atestando que o atleta estava “limpo”.

O diretor do laboratório russo, Gregory Rodchenkov admitiu a participação do governo na substituição dase amostras, confessando que ele mesmo administrava aos esportistas um coquetel de três esteroides anabolizantes – metelona, trenbolona e oxandrolona – para que competissem em nível máximo. Para facilitar a ingestão dissolvia as drogas em uma dose de uísque Chivas para os homens e de Martini para as mulheres. O resultado foi excelente! Frente às 23 medalhas e do 6º lugar obtido nos jogos de Vancouver, a Rússia (contra todos os prognósticos) venceu os jogos de Sochi com 33 medalhas, treze delas de ouro, deixando para trás os favoritos norte-americanos. Putin condecorou Rodchenkov considerando-o herói nacional.

De acordo com a WADA, 643 amostras foram alteradas em Sochi, a maior parte no atletismo e no halterofilismo, envolvendo pelo menos 15 medalhistas. Numa maldade final o COI, que nada detectara durante os Jogos de Inverno ou em qualquer das competições seguintes nas quais o esquema seguiu ativo, puniu Yuliya Stepanova (a velocista dos 800 metros que ao lado do marido denunciou a fraude) vetando sua participação no Rio. Putin chamou-a de “Judas” e ela, sem opções, em 2014 asilou-se na Alemanha.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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