Colômbia: Paz com as Farc e guerra com o ELN

08/09/16 às 16:56

O “Acordo final para o término do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura” entre o governo colombiano e as Farc, assinado em Havana após 3 anos e 9 meses de negociações, seguindo a tradição de prolixidade dos documentos firmados na América Latina tem 297 páginas de uma cansativa repetição de conceitos e promessas pouco precisas. Considerado como uma grande vitória da administração de Juan Manuel Santos, destina-se a por fim a uma guerra iniciada na década dos anos 1960 e que até hoje não tem um vencedor nem definido nem provável. Um plebiscito em nível nacional deve, em 2 de outubro próximo, sacramentar o Acordo, seguindo-se a transformação da guerrilha em um movimento político regular. Já estão definidos os modelos de entrega de armas, libertação de menores combatentes e de prisioneiros, substituição de cultivos de drogas, reincorporação dos guerrilheiros à vida civil, bem como a suspensão de bombardeios, sequestros e ataques pelos dois lados. Não é pouca coisa, mas ainda assim persiste a oposição cerrada por parte do direitista Centro Democrático do ex-presidente Álvaro Uribe por considerar o processo de paz uma rendição à vontade do inimigo, na prática não o punindo pelo mal que ocasionou à sociedade.

No entanto, a paz está longe de ser completa, pois fica de fora o Exército de Liberação Nacional, o ELN. Com pelo menos 1.500 homens em armas e sólida atuação em Norte de Santander e em doze outros Departamentos (equivalem a Estados e são 32 no país, além de Bogotá), surgido em 1964, tem uma larga tradição de autonomia e resistência. Foi o único grupo beligerante a não firmar o tratado de paz de 1984 no governo de Belisario Betancur, mantendo-se ativo e contribuindo fortemente para seu fracasso ao sequestrar em seguida ao irmão do presidente. Centrado na sabotagem à rede de refino e distribuição de petróleo e ao sequestro em massa (em festas de aniversário e de casamento), o movimento viu-se atacado pelo governo, pelos paramilitares e até pelas Farc, mas resistiu e permanece vivo.
Define a si próprio como de orientação marxista, de apoio à evolução cubana, seguindo a teologia da libertação proposta pelas alas progressistas da igreja católica. Seu mais famoso comandante, o padre Camilo Torres, foi abatido em 1968 e teve o corpo enterrado em local desconhecido. Em março deste ano quando se ensaiou um diálogo de paz com o governo Santos, este num sinal de boa vontade ordenou ao Exército uma busca dos restos do sacerdote. No entanto, uma nova ofensiva do ELN (sequestros, incêndio de veículos oficiais) resultou na declaração de Frank Pearl, o encarregado das negociações pelo governo, de que o processo poderá prosseguir, mas sem interrupção do conflito e sem qualquer cessar-fogo. A oferta é de que a guerra continue até que o ELN deponha as armas ou seja aniquilado.
No último domingo, o chefe máximo dos “elenos”, Nicolás Rodrigues Bautista, o Gabino, enviou uma carta aberta às Farc em que diz: “A todas e todos vocês nosso abraço fraterno, desejando que tenham êxito no caminho empreendido de converter-se em um movimento político legal ... Esta guerrilha tem expressado de maneira franca que respeita, mas não comparte com a essência de tais acordos ... Seguimos nos encontrando nos distintos espaços em que a luta popular e revolucionária nos coloque”.
O comportamento é típico do ELN que, ao continuar como grupo guerrilheiro, espera absorver parte dos agora ex-combatentes das Farc, além de livrar-se da concorrência nas montanhas colombianas pelo controle da distribuição e tráfico da coca, componente vital para seu financiamento.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional. 
Autor do livro “Guerra en los Andes” (Ed. Abya Yala, Quito, 2ª. edición)

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