Show de hipocrisia

05/10/16 às 16:47 - Atualizado às 22:10 Napoleão de Almeida @napoalmeida

Vergonhosa a decisão da diretoria do Atlético em manter o show de Andrea Bocelli e retirar o maior clássico do futebol do Paraná de sua Arena, em meio a uma briga dura por uma vaga na Libertadores. Nenhuma justificativa é válida. A tabela do Brasileiro é conhecida desde março, o show foi anunciado em maio; CBF e Coritiba não têm nada a ver com isso e a confederação optou por manter o calendário – não foi ela quem se planejou mal, tampouco era possível prejudicar o Coxa antecipando um jogo que ficaria encavalado entre dois jogos decisivos na luta contra a queda, Inter em Porto Alegre e Figueirense em casa. Falar em arrecadar para melhorar o futebol do clube é um contrasenso. A arrecadação, que será no mínimo dividida com os organizadores, não será superior a de um clássico com casa cheia. E quem acredita em investimento em futebol quando se tira o jogo do campo onde se tem o melhor aproveitamento como mandante na temporada? Mas nada disso, nem o resultado do jogo a ser jogado na Vila Capanema, importa. O crime mesmo é contra a identidade do clube e seus sócios, privados de verem o principal duelo do estado no conforto, capacidade e segurança das cadeiras que pagam mensalmente. Esse é o Atlético de hoje, capitaneado sem alma e feito para resultados. Depois ainda cobra 40 mil sócios.

Importante: o Coritiba não tem nada com isso. Não podia vetar a decisão da CBF, se fosse contrária, e também tem sua agenda e vida próprias. Perde pouco, apenas ingressos a menos no outro estádio. E ainda pode sair no lucro ao não jogar na casa do rival, embora tenha vencido um dos dois jogos na grama sintética.

A nova Libertadores é ótima
A Conmebol acertou em cheio na nova Libertadores, com mais clubes, mais datas e integração com a Copa Sul-Americana. Há quem esteja questionando a possível queda de qualidade da competição, agora com 44 e não mais 38 clubes. É um argumento falho: as seis vagas a mais virão da Copa Sul-Americana, com o campeão – e um clube campeão continental jamais pode ser subestimado – e dos países com maior qualidade técnica em seus campeonatos: Brasil (2), Argentina, Chile e Colômbia. É preciso dizer ainda que eles entrarão numa fase anterior, de playoffs, como o que já ocorre com a badalada UEFA Champions League, que tem 78 clubes em sua disputa. Mas vou além: do atual G6 do Brasileirão, esticando até o décimo lugar onde estão os concorrentes mais imediatos antes do início da rodada do meio de semana, apenas a Ponte Preta não é uma habitual frequentadora da Libertadores. De todos, o clube que está a mais tempo sem participar da competição é o Santos, 2012. Ou seja: as forças são as mesmas.

Ampliação do alcance do futebol
O livro ‘Jogo Sujo’, do inglês Andrew Jennings, traz muitos detalhes de negociatas que a Fifa fez sob o comando de João Havelange, mas comete um equívoco grave: critica a expansão do futebol para África e Ásia, não apenas o modelo em que ela se deu. Colocar em xeque a credibilidade da Conmebol é justo – que o diga o FBI – mas ignorar a demanda que várias praças têm por melhores jogos, não. O Belgrano, um clube de terceira linha na Argentina, fez dois jogos para 80 mil pessoas com o Coxa. Não é possível que isso seja ruim, sob nenhum prisma. Mais clubes significa mais cidades, mais pessoas envolvidas. Além do mais, a integração com a Copa Sul-Americana adequa o calendário da Conmebol, que passa a ter o casamento que a UEFA tem entre Liga Europa e Champions. A divisão de qualidade será natural, e esta tem sua origem na economia que segura craques, não no número de clubes. Por fim, mas não menos importante, o mata-mata antes da fase de grupos trará emoção desde o início, atendendo também a essa demanda. Quanto às vagas brasileiras, havia pouco a se fazer: premia-se os melhores do campeonato mais regular. A Copa do Brasil tem clubes que entraram apenas nas finais, premiar o vice seria um erro. Resta agora adequar os estaduais, um problema da CBF.

Napoleão de Almeida é narrador esportivo e jornalista especializado em gestão

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