Destruindo tradições

13/10/16 às 00:00 - Atualizado às 17:11 Napoleão de Almeida | Twitter: @napoalmeida

Os 107 anos do Coritiba foram celebrados ontem no jogo com o Figueirense, na semana que acabará com o Atletiba da Vila Capanema. Ver o Coxa de azul foi no mínimo esquisito. As empresas fornecedoras de material esportivo precisam faturar, isso é sabido. Então criam situações que justificam novas peças. No caso dessa nova camisa – bonita, mas sem muito nexo – o mote foi a “Fita Azul”, certificação dada pela extinta Gazeta Esportiva aos clubes que voltassem ao Brasil invictos após excursões ao exterior. Lembro da camisa toda preta, artifício usado pelo pool Nike/Netshoes para aproveitar um estoque. A justificativa foi o passado alvinegro do Coritiba. O uniforme 1, inspirado na Seleção Alemã, dava esse tom: camisa branca, calções pretos, tal qual o Corinthians. Havia uma história, portanto. “Ufa”, pensaram os marqueteiros. Foi a partir dos anos 70 que o verde do uniforme 2 foi ganhando espaço nas partidas, a ponto do falecido Lombardi Júnior, paulista radicado no Paraná, adaptar o “Verdão” do Palmeiras para o Coxa – um apelido único e marcante. Pegou. Existe um conflito constante entre tradição e modernidade. O futebol é campo fértil para isso, pois tem se tornado cada vez mais mercantilizado na medida em que o tempo passa e os clubes vão somando décadas. O clássico de domingo é um exemplo negativo, mais que as mudanças nas camisas dos clubes. “O futebol é profissional”, justificam.

Baixada, terra prometida
O maior clássico do Paraná jogado em segundo plano, em detrimento de um show, é uma ofensa às tradições do futebol local. Nem mesmo os cerca de R$ 2,4 milhões pagos pelos empresários que locaram o estádio devem servir de justificativa. Tem valores que não se vendem. E nada garante que esse dinheiro em caixa mude a politica atleticana de gestão de elenco. Será que o dinheiro irá para renovar com Thiago Heleno, por exemplo? É, novamente, o mercantilismo. O desrespeito com os sócios, que se mantiveram fiéis com o clube jogando por quase 3 anos longe de sua casa, mostra o interesse real. Para sermos complacentes, o mínimo que se pode dizer é que o clube foi desatencioso com sua atividade-fim, o futebol. O atleticano passou anos longe de sua casa, que por uma vida toda foi seu único orgulho. Hoje, com ela em pé, moderna e portentosa – mesmo acinzentada – se vê obrigado à nova diáspora, nem que por um dia. Justo o dia do Atletiba. Haverá esvaziamento de público na Vila, que certamente não receberá lotação máxima mesmo com um clássico quente, com Libertadores na pauta. Criou-se uma mágoa e isso não se recupera tão fácil, mesmo no dócil coração do torcedor. Mas não é só.

Quem sofre é o povo
Inexplicavelmente, o Atlético majorou o custo dos ingressos para o clássico em 200 reais. Não justificou publicamente, mas deixou no ar que é retaliação pelo “não” do Coxa ao remanejamento do jogo, de domingo próximo para o passado, dia 9. O Coritiba estava em seu direito e sequer teria a opção do não se a CBF comprasse a ideia, já que o Regulamento Geral dá espaço para essa decisão quando a praça dos dois times é a mesma. Acontece que a CBF não topou mudar e o Furacão ficou com o pires na mão. Como a diretoria preferiu usar sua casa para um show, restou jogar para a torcida, encarecendo absurdamente o ingresso, também para os seus. Só que estes já estão pagos, então sobrou para os alviverdes. Fora os torcedores mais cegos – seja por fanatismo ou devoção a dirigentes – mesmo os atleticanos sabem que é uma decisão que joga contra o clássico, que vai terminar em retaliação futura, azedando as relações que pareciam boas fora de campo. Uma roda negativa que não tem fim, pois ora um, ora outro, ambos não aceitam um basta. Quem sofre é o povo, seja o coxa-branca que não verá seu time na Vila, seja o atleticano que irá ao Couto num futuro próximo. Curiosamente, é nessa que acaba o profissionalismo dos dirigentes: demonstram seu caráter em jogadas políticas quando lhes são convenientes.

Napoleão de Almeida é narrador esportivo e jornalista especializado em gestão

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