Lavando a boca com sabão

26/10/16 às 00:00 - Atualizado às 00:03 Eduardo Luiz Klisiewicz | osimprao@hotmail.com

Qual é o peso de um “Vai tomar no cu” durante uma partida de futebol, seja ela uma clássica “pelada” ou um jogo de campeonato brasileiro? Nenhum, né? Pois é. Não existe jogo de futebol sem palavrão. Desde aquele gol a gol com um brother ou um “três dentro, três fora” com a piazada, até os jogos mais importantes, de Copa do Mundo, com direito a “mother fucker” e tudo mais. O palavrão tá enraizado no futebol e arrisco-me a dizer que ele não sobreviveria sem aquelas “palavras feias”.

Senão vejamos. Sou um caboclo meio boca-suja. Uso o palavrão como vírgula em algumas frases e não sei se tenho orgulho disso. Mas nem sempre foi assim. Quando era mais piazinho, minha mãe criou uma regra muito clara dentro de casa: “Palavrão só no estádio. Aqui leva tapa na boca”. E era dito e feito (ah! levei umas palmadas quando criança, mas não virei bandido por causa disso).

Sei que essa era a recomendação de muitas mães daquela época. Se o cara perdia um gol, o juiz marcava algo “errado” ou o atacante era pé murcho, dá-lhe uma xingadela pra tirar um pouco do estresse da adolescência.

Hoje pago o preço de ter que me policiar para não soltar um palavrão na frente da minha afilhada e demais crianças em fase de formação, para não correr o risco de ser o “tio boca-suja” e virar exemplo do que não se transformar ao chegar à fase adulta. Paciência.

Mas no futebol, os palavrões não são usados apenas para ofender um adversário ou mesmo o árbitro da partida. Quem não solta algum deles quando o seu atacante faz um golaço, ou suspira e xinga depois de o adversário acertar nosso travessão. O mundo é assim, não tem jeito. E, se tivesse, teria porque mudá-lo? Não sei não.

No fim de semana, o Kléber, do Coritiba, foi expulso na partida contra o Fluminense. Segundo o árbitro, a decisão de lhe aplicar o cartão vermelho foi tomada após o jogador ter lhe xingado. Aqui nos deparamos com um dilema. Embora as vezes não curta, eu costumo seguir as regras de convivência que a sociedade me impõe. Então, se as regras do futebol discorrem sobre punir o jogador boca suja, o jogador tem que ser punido. E ponto. Entretanto, se cada jogador ou, prestem atenção ao destaque, O ÁRBITRO, que xingar for expulso... ah, amigo. Vai faltar gente pra vestir a camisa.

Essa é apenas mais uma das incontáveis hipocrisias que temos que aturar na vida.

Pela frieza da regra, Kléber até que foi expulso corretamente pelo senhor Raphael Claus. Mas pela prática comum do futebol, ele jamais deveria ter sido punido. Sob seus ombros Kléber carrega também uma vida de polêmicas e expulsões. Isso certamente pesou na hora em que o arbitro decidiu expulsá-lo. Xingando ou não, era o Kléber. “Ele sempre faz dessas”. Mas foi uma sacanagem. Uma porque a falta não merecia nem cartão amarelo. Outra porque o Kléber mudou no Coritiba e não mais é o atleta que construiu essa fama de bad boy. A imagem do Wellington Silva surpreso com a expulsão é o melhor resumo da jogada e da polêmica em si. Ninguém entendeu bulhufas.

A mim pouco importa se o Kléber xingou ou não. O que não pode acontecer é o futebol e suas inúmeras frescuras – como a absurda punição ao jogador que “comemora demais ou gol, tirando a camisa ou coisa que o valha. Os caras querem que o jogador fique triste quando marca o gol da vitória — escolher um bode expiatório por rodada para testar suas novidades que reforçam cada dia mais o poder soberano dos intocáveis árbitros.

Por fim, verdade seja dita, ultimamente o Coritiba não está jogando “bullshit” nenhuma. É melhor se espertar, porque senão “the house falls”.

Eduardo Luiz Klisiewicz é curitibano, jornalista, radialista e empresário.

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