Donald Trump e a América real

10/11/16 às 16:56

Os americanos autênticos, verdadeiros, aqueles da Norte-América profunda, venceram de novo. O mundo não gosta deles? Pouco importa, pois se consideram superiores a tudo e adoram mandar no mundo. Se reclamarem muito basta fazer a guerra, jogar-lhes algumas bombas em cima e tudo se resolve! Assim, com saudades do bom e velho G.W. Bush, à falta de algo melhor, elegeram não um rei e sim um monstro.

Estavam cansados depois de suportarem dois mandatos de um negro na presidência e agora queriam impingir-lhes uma mulher... Basta! Bob Clinton contou, divertido, uma historinha – em 1961 Hillary, aos 14 anos, escreveu uma carta à NASA, perguntando o que precisava fazer para tornar-se uma astronauta. A resposta: Thank you, but we don’t take girls (Obrigado, mas não aceitamos mulheres)”. A NASA mudou, passou a admitir girls, mas o povo americano não.

Quando, na tela, surgiram os resultados da Pensilvânia (20 votos), democrata desde 1988, a vitória de Donald Trump estava definida. Mas, perguntavam-se atônitos seus adversários, lembrando os tempos em que Trump ganhava a vida fazendo comerciais na TV, quem vai eleger um ex-garoto propaganda da Pizza Hut? Pois, no início da madrugada desse 9 de novembro Hillary Clinton entregou os pontos e civilizadamente fez a ligação cumprimentando Donald por sua eleição. Ele recebeu dois outros telefonemas emblemáticos dos novos tempos, um de Marine Le Pen, a rainha da ultradireita francesa, outro de Vladimir Putin que augurou melhores relações entre Rússia e EUA a partir de agora.

No exótico modelo eleitoral norte-americano ela conseguiu uma apertadíssima vantagem no total de votos, mas no Colégio Eleitoral empacou em inacreditáveis 218 votos enquanto Trump chegou a 276. No Wyoming e em West Virginia Trump recebeu 70% dos votos e de maneira decisiva ganhou em Ohio, na Flórida e na Carolina do Norte, três swing states (a cada eleição mudam de lado).

Bernie Sanders, o “socialista” (como se isso existisse numa corrida à Casa Branca) que perdera a nominação como candidato democrata para Hillary vingou-se: “eu não disse que ela não conseguiria vencer Trump?”. O fato é que a sempre presente e cruel ‘maioria silenciosa’ ressurgiu dos confins da América para assegurar aos republicanos um triunfo incontestável tanto para o Executivo quanto para a Câmara e o Senado. Segundo o londrino The Guardian, “a vitória de Trump é um dia negro para o mundo”, esquecendo de que o Brexit recentemente afundou o Reino Unido.

Se surpresa houve, deve-se aos incorretos prognósticos divulgados pelos Institutos de Pesquisa que, conhecedores da força da onda republicana em pelo menos 28 dos 50 estados, até a última hora atuaram mais como veículos da campanha democrata do que como agências imparciais de notícias. A desastrada campanha de Hillary lembra a derrota de Vargas Llosa em 1990 que condenou o Peru a suportar por dez anos a ditadura de Alberto Fujimori. E não foi por falta de aviso. Os Simpsons, dezesseis anos, atrás previram Donald Trump na presidência e suas trágicas consequências para os Estados Unidos da América.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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