Até coxas devem torcer pelo Atlético sábado

24/11/16 às 00:02 - Atualizado às 19:15 Napoleão de Almeida | Twitter: @napoalmeida

Sábado, 21h, Arena Corinthians em São Paulo. O dono da casa receberá o Atlético para um duelo que pode valer vaga na Copa Libertadores de 2017. Na semana em que o seleto grupo que dita as regras no futebol brasileiro demonstrou que é utopia imaginar uma divisão menos desequilibrada das verbas de um mesmo campeonato, sepultando a alma da Primeira Liga, o Furacão leva seu orçamento mediano para encarar o clube de maior faturamento em mídia na última década. O Corinthians é quem mais recebe (ao lado do Fla) valores da televisão pela disputa de um mesmo campeonato. Sim, ele dá audiência maior e é justo que receba mais. Só não é inteligente, nem bom para a competição, que essa seja a única métrica. Com a distância aumentando cada vez mais entre os clubes, o Atlético irá desafiar o status quo que sufoca a ele, ao rival Coritiba e a grandes forças e camisas como Bahia e Sport, entre tantos.

Don Quixote de La Baixada

O Atlético contraria a lógica ao estar na 5ª posição a duas rodadas do fim do campeonato. É a utopia que dá graça a uma competição que tem cartas marcadas há muito tempo. O quarteto citado acima e mais o Guarani, num longínquo 1978 (quando as finanças eram menos relevantes no futebol, como ensina o livro “Soccernomics”) são exceções à regra. Nos últimos 10 anos, apenas em uma ocasião, 2013, um clube que não esteja no pacote dos tais 12 grandes esteve entre os quatro melhores. Foi o Atlético, terceiro colocado. Ser campeão é algo ainda mais seleto: cinco clubes tiveram a glória no período. Nenhum nem mesmo do Rio Grande do Sul, cuja tradição na bola é maior que a do Paraná. O que regula é o dinheiro, e com a divisão atual é praticamente impossível competir.

Contramão do mundo

As melhores ligas esportivas do Mundo brigam pelo equilíbrio, para que o campeonato seja atrativo. Já há uma vantagem competitiva de mercado para clubes como Flamengo e Corinthians. Esses clubes vendem mais camisas, melhores patrocínios, maior bilheteria. É honesto, é a força e o tamanho deles. O problema é quando um mesmo campeonato decide dar maior remuneração a uns do que outros para sua disputa. Não há Brasileirão sem Chapecoense, como não há campeonato apenas como jogos entre Fla e Timão. A verba do campeonato precisa ser melhor dividida, sob pena de perder a competitividade. Quem resistiu nos últimos anos sempre teve um mecenas por trás. A Unimed com o Fluminense, o bolso abastado do palmeirense Paulo Nobre, a força política do Cruzeiro dos Perrella. O São Paulo é o terceiro que mais recebe. Os demais são figurantes. Nas grandes ligas mundiais a divisão remunera melhor sim quem tem mais público, mas não apenas isso. Na Inglaterra, a milionário Premier League paga apenas 25% de sua receita aos clubes de maior audiência. Metade de toda a verba é dividida igualmente, enquanto que outros 25% pagam por classificação, um prêmio pelo esforço. O resultado é equilíbrio e grandes jogos. É assim também no ótimo campeonato alemão, onde o Bayern se sobressai por ser melhor em outros quesitos, mas a competição é duríssima. Na NFL e na NBA, as milionárias ligas esportivas americanas, o pior do ano anterior tem direito a se reforçar primeiro nos drafts. Até mesmo a MLS, que tem levado mais de 60 mil pessoas a seus jogos de soccer tem uma divisão igualitária. Todos querem disputa, equilíbrio emoção. No Brasil, não. A Primeira Liga, que nasceu para romper com tudo isso, morreu no primeiro rompante de grandeza da dupla Fla-Flu. Atlético e Coritiba saíram e agiram bem. Esquema viciado por esquema viciado, que fiquem com o da CBF, que ao menos legitima competições como o Brasileirão de 87.

Crucificados pelo sistema
É por tudo isso que até coxas-brancas devem torcer pelo Atlético no sábado. Apesar da rivalidade e da flauta que virá, a possível classificação atleticana para a Libertadores diante de todo esse contexto e de toda a gama que interesses que cerca a chance do Corinthians estar lá em 2017 é uma redenção para todos aqueles que acreditam que é possível fazer o futebol brasileiro ser melhor, ser diferente do que é hoje.

Napoleão de Almeida é narrador esportivo e jornalista especializado em gestão

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