Etiqueta na escola e no trabalho

24/01/17 às 00:00 Por Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

Se considerarmos o sentido “macro”, a natureza é harmônica. Ao longo das eras, em processos sucessivos de criação-destruição-criação de continentes, oceanos e espécies, há um equilíbrio que às vezes nos escapa por não caber em nossa noção de tempo e espaço. Os seres vivos são frágeis, e as relações entre eles tendem quase sempre ao conflito: animais, insetos e até vegetais competem por lugares, alimento, controle, continuidade.

A espécie humana enfrentou desde sempre inimigos naturais, e mesmo seus semelhantes, conseguindo sobreviver pela associação, formação de grupos que praticavam algumas regras de convívio que reduziram as desavenças sangrentas dentro deles e facilitaram as atividades de caça, coleta e defesa. O início da civilização e do “pacto social” constituiu a melhor, se não a única, garantia de bem estar entre pessoas com diferentes propósitos, necessidades e culturas.

Uma das funções da escola, com a participação indispensável da família e da sociedade, é urbanizar criança e jovens, ou seja, moldar posturas, permitir convivência – o mais pacifica possível – ter contato com os manuais de civilidade, compostos pelas normas de conduta essenciais para a vida comunitária.

Consideramos civilizado àquilo que é contido, polido, agradável, cultivado, ou seja, que internalizou as regras indispensáveis para as boas maneiras, o autocontrole, a sensibilidade em relação aos demais, ao abrandamento das emoções, que virão a ser indispensáveis não apenas na convivência, mas também ao futuro desempenho profissional dos jovens. Relações interpessoais de boa qualidade são fundamentais quando o estudo ou o trabalho envolvem qualquer espécie de contato entre pessoas, maioria dos casos, e as práticas civilizadas constituem preocupação no mundo desde o século XVI, embora no Brasil apenas mais recentemente.

Quanto mais antigo o código de etiqueta, maior é a delegação à mulher, como dona de casa e orientadora da família, na transmissão do bom comportamento, função que seria continuada e aperfeiçoada pela instituição escolar, para que o refinamento moral e intelectual pudesse ser atingido.

Apenas a partir do século XIX passa a existir um processo de democratização das leituras destinadas às normas protocolares, aos manuais de etiqueta, facilitado pela expansão da alfabetização, pelo maior acesso a livros cujas edições tornaram-se mais acessíveis para camadas menos privilegiadas da sociedade; ainda assim mais destinados às mulheres, com aconselhamentos inclusive sobre como construir uma boa vida familiar.

Mas existem dois tipos de conhecimento, algumas vezes dificilmente distinguíveis um do outro: o oficial e o cultural; normalmente escolas ocupam-se do primeiro, enquanto o segundo compete frequentemente ao grupo social, aí incluída a família, na qual a mãe tradicionalmente ocupa lugar de destaque, embora esta realidade venha mudando aos poucos. Conhecimentos culturais são, portanto, variáveis, e responsáveis, muitas vezes, pela heterogeneidade entre educandos, o que nem sempre facilita a aprendizagem num sistema de ensino homogêneo como é o brasileiro.

A função da instituição escolar, além do preparo para o mundo do trabalho, é a de transmitir a memória social da comunidade, no que tange à ciência, tecnologia, arte, literatura, parte delas já realizada pelo grupo social, por meio das histórias construtivas, os heróis, as músicas, as tradições, a alimentação e outros. Ou seja, ambos transmitem aquilo que será considerado o comportamento polido, indispensável ao exercício laboral, maneira de ocupar um lugar no mundo e na sociedade com pleno conhecimento e compromisso com a profissão e com os demais, respeitando sempre as inevitáveis diferenças.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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