Brasil e China em Davos

29/01/17 às 13:19

A pacata e belíssima Davos no alto dos Alpes suíços viveu nesta última semana seus dias de maior glória. A cada ano em janeiro o Fórum Econômico Internacional reúne durante cinco dias a nata das lideranças mundiais para analisar o cenário e definir as tendências da globalização. O idioma nas ruas deixa de ser o alemão que é falado por quase todos os 11 mil moradores permanentes e os resorts nos Alpes dão preferência aos seus mais ilustres visitantes, de fato transformando-se numa aldeia global onde todas as línguas se misturam.

Numa aparente inversão de valores, em palavras evidentemente direcionadas a Donald Trump, o novo presidente norte-americano, embora sem citá-lo nominalmente, o 1º ministro chinês Xi Jin Ping pronunciou o esperado discurso de abertura, defendendo a globalização.
"Perseguir o protecionismo é o mesmo que encerrar-se num quarto escuro onde o vento e a chuva não entram, mas tampouco o fazem a luz e o ar fresco. Ninguém resultará ganhador em uma guerra comercial", disse Ping para ser aplaudido com entusiasmo pela atenta plateia que absorvia cada palavra pelo que de fato neste momento representa - um dos caminhos para o livre comércio entre os países.
Davos é a principal vitrine onde é preciso estar. Lá, entre muitos, viu-se Juan Manuel Santos, o flamante Prêmio Nobel e Presidente da República da Colômbia; o novo líder argentino Maurício Macri, o sul-africano Jacob Zuma. Todos são homens muito ocupados, mas foram à Suíça para ouvir a Jin Ping e conversar com seus parceiros. E lá não estava Michel Temer. É verdade que também não apareceram Donald Trump porque tomava posse no mesmo dia em que Davos se encerrava, e Angela Merkel que foi figura de proa nos últimos Fóruns. Pelo Brasil compareceram, entre outros, o ministro Henrique Meirelles, o Procurador Rodrigo Janot e dois dos patrocinadores de Davos, os presidentes do Itau e do Bradesco, Roberto Setúbal e Luis Carlos Trabuco, que foram bombardeados, em meetings secundários, com perguntas sobre corrupção e crise econômica. As razões da ausência de Temer, segundo a revista Época, teriam sido bucólicas: a inconveniência em deixar Rodrigo Maia em sua cadeira e a concorrência nas manchetes da posse de Trump.
Fundado em 1971 por Klaus Schwab, o Fórum Econômico tornou-se global a partir de 1987. Encontrando-se recentemente com Temer durante a Conferência Geral da ONU em New York, Schwab enfatizou-lhe a importância de ir a Davos, convidando-o com a garantia de um encontro com os mais destacados CEOS e com a mídia internacional. Mesmo assim, nosso presidente preferiu ficar no Brasil e o país terminou sendo radicalmente esquecido seja nos grandes debates econômicos, seja como referência no contexto da América Latina. Vale lembrar que Lula foi presença ativa em Davos durante seus dois mandatos e Dilma pelo menos lá esteve em 2014, verdade que em tempos nos quais o Brasil navegava em ondas bem mais positivas do que hoje. Se é claro que a frequência a Davos não garante boas oportunidades de negócio nem a simpatia dos grandes players internacionais, também não deixa de ser uma extraordinária oportunidade de interação que sem dúvida foi perdida.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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