Etiqueta

01/02/17 às 17:11 Por Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

A corte de Maria Antonieta, pouco antes da Revolução Francesa, destacava-se por ter um enorme conjunto de regras, normas, picuinhas, precedências, a maior parte sem nenhum sentido prático, serviam apenas para pontuar o status dos cortesãos. Algo parecido aconteceu no Japão com os samurais, guerreiros que serviam aos senhores feudais em conflito permanente, quando foi estabelecido um poder central e as guerras locais foram proibidas, os rudes samurais ficaram sem ocupação, passando então a seguir complicados códigos de conduta e comportamento, afinal quem se dedica a cerimônias elaboradas para o preparo de chá ou confecção de arranjos de flores não tem tempo para pensar em derrubar nenhum governo.

Pessoas ou grupos de pessoas cujas atividades tornam-se irrelevantes procuram formas de compensação em rituais que, supostamente, preservariam sua condição de protagonismo. Muitas regras de etiqueta tem no princípio motivos palpáveis, estabelecem condições de convívio civilizado, não é agradável, por exemplo, partilhar a mesa com alguém que se apossa com as mãos de um pedação de carne e o devora barulhentamente, mas também é exagero exigir que as pessoas utilizem os talheres segundo o estrito protocolo do castelo de Windsor.

Todas as áreas da ciência e da tecnologia têm seus termos próprios, o jargão que é usado para expressar particularidades que, às vezes, são apenas de conhecimento e interesse dos profissionais. E alguns desses, geralmente por insegurança quanto a seu real papel na sociedade, utilizam esses termos em contextos a que não pertencem. É comum vê-los concedendo entrevistas a veículos comuns de notícias e se expressando de modo a não deixar dúvida de que são especialistas naquilo de que falam, mas não se fazendo entender em absoluto por quem não o seja. E isso quando o objetivo não é proferir uma conferência técnica para outros técnicos, e sim esclarecer ao público algo de seu interesse. É, com certeza, perfeitamente possível descrever uma cirurgia cardíaca, o cálculo de uma ponte, e até mesmo um embargo infringente, em termos leigos e compreensíveis por leigos; obviamente que sem qualquer pretensão de ensina-los a realizar tais façanhas, apenas explicar do que se trata.

Nos anos 1950, Ferreira Gullar fez uma reflexão interessante sobre a crase, dizendo que esta não foi feita para humilhar ninguém. Em parte com viés jocoso, em parte à sério, o propósito do poeta foi chamar a atenção para um dos maus usos que se faz amiúde de conhecimentos especializados para ressaltar posição de dominância.

Embora ao escrever seja indispensável adotar a norma culta do idioma, ainda assim existe uma forma correta e agradável de escrita, em oposição a um excesso de formalidade que pode beirar perigosamente a presunção e arrogância. Jânio Quadros não se tornou caricatural pelo modo empolado de falar, foi a tentativa ridícula de praticar um golpe de Estado através da renúncia ao mandato que o fez; no entanto, o uso da mesóclise (fá-lo-ei, ir-se-ão) em sua fala diária certamente contribuiu muito para isso.

Aristóteles considerava possível explicar a existência de todas as coisas pelas suas funções, ou seja, pelas suas finalidades; e um aspecto fundamental de sua escola de pensamento é a doutrina da justa medida, com os seres humanos agindo corretamente quando evitam os extremos em todas as situações. Para este pensador, qualquer ação seria justa quando não exercida com falta ou com excesso, e sim com virtude, com pleno controle da razão.

A verdadeira etiqueta é caracterizada por este caminho do meio, estar no mundo implica convivência com outros, ser civilizado significa ser polido, ter internalizado algumas regras que facilitam os relacionamentos e permitem a vida em sociedade com o mínimo de conflitos. O exagero delas certamente não contribuirá para isso.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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