Na Romênia, como no Brasil

11/02/17 às 13:49

Pressionados pelo DNA, o Diretório Nacional Anti-corrupção, que desde 2008, sob comando da Procuradora Codruta Kovesi (a Sérgio Moro de lá) faz questão de processar e condenar políticos e milionários à torto e direito, os parlamentares romenos apenas um mês depois de serem empossados estavam a ponto de aprovarem em caráter emergencial dois decretos executivos modificando o Código Penal para perdoar condenados com sentenças de até 5 anos, anistiar casos de abuso do poder e definir como desvio de dinheiro público só valores acima de 200 mil “lei” (a moeda nacional, equivale a R$ 140 mil), quando o povo nas ruas obrigou-os a recuar. Neste domingo o jovem 1º Ministro Sorin Grindeanu revogou as propostas que beneficiariam diretamente boa parte da cúpula da principal agremiação política, o Partido Social-Democrata, PSD: o líder Liviu Dragnea (é quem manda, de fato, no país), condenado a 2 anos de cadeia por crimes eleitorais; o ex-1º Ministro Adrian Nastase que cumpre pena e o magnata Dan Voiculescu, o rei da mídia, condenado a 10 anos por lavagem de dinheiro.

Único país latino no bloco da ex-União Soviética, a Romênia (o nome vem de “Roma”), nas últimas seis semanas assiste a manifestações espalhadas por todo o território nacional, mas com epicentro na Piata Victoriei (Praça da Vitória) em Bucareste, que têm reunido multidões estimadas em até 500 mil manifestantes, as maiores desde a queda do socialismo em 1989. Não satisfeito com o recuo tático do governo, o povo pede a renúncia de Grindeanu e seu gabinete. Como disse o Secretário da Comissão Europeia, “a luta contra a corrupção na Romênia precisa avançar e não ser desfeita”. O atual Parlamento foi eleito em dezembro último, com maioria de 40% para o PSD. A oposição é fraca e fragmentada. Mas o Presidente da República, Klaus Iohannis, no posto desde 2014 com mandato de 5 anos, é da Aliança Liberal Cristã, maior inimiga do PSD, e sempre que possível não assina as medidas mais estranhas que lhe são propostas. No final do ano passado o período natalino foi agitado. Dragnea, que queria ser 1º Ministro, ao ser impedido indicou para o cargo uma mulher (de quem fora padrinho de casamento), inexperiente e muçulmana, Sevil Shaideh, cujo marido é um negociante sírio que apoia Bashar al-Assad. No país 80% da população é cristã ortodoxa, com uma fatia de 1% muçulmana. O presidente rejeitou o nome e, impasse criado, o PSD optou por indicar Grindeanu, um esquerdista moderado. Dragnea, como em tudo que o contraria, protestou dizendo ser vítima de um Golpe, não sem antes promover ruidosa campanha recheada de vazamentos sistematicamente favoráveis ao PSD, denunciando o DNA e a Procuradora Kovesi.
Tão semelhantes como vítimas da moderna corrupção institucionalizada, os dois países têm vivido histórias e realidades bem distintas. A Romênia - 19,2 milhões de habitantes e território quase do tamanho do estado de São Paulo – tem um PIB per capita de 9.530 dólares (15% inferior ao brasileiro) que na União Europeia (UE) supera apenas o da Bulgária. O processo de adesão à UE que é de 2007 ainda não se completou porque está condicionado à comprovação do fim da corrupção no sistema judicial, impedindo que o país seja membro do “Espaço Schengen” de livre circulação de pessoas. No começo da 2ª. Guerra Mundial a Romênia aliou-se ao 3º Reich e no regime fascista de Ion Antonescu, num processo de limpeza étnica executou cerca de 380 mil judeus e 11 mil ciganos. Ao final aderiu aos Aliados, submetendo-se à ocupação soviética entre 1944 e 1956. Em seguida veio o domínio do Partido Comunista Romeno e a ditadura de Nicolae Ceausescu, executado junto com sua mulher Elena por um pelotão de fuzilamento em 25/10/1989 após rápido julgamento pelo genocídio de 60 mil adversários. Desde então foram, incluindo o atual, quatro Presidentes e dois processos de impeachment.
Agora, as denuncias envolvem práticas de superfaturamento e pagamento de propinas em contratos firmados pelos ministérios e empresas estatais. O Ministro do Comércio, Florin Jianu, ao pedir demissão, justificou-se dizendo discordar dos decretos e não poder explicar a seus filhos o apoio a decisões tão erradas.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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