Em Curitiba, açougues de bairro devem lucrar com a operação da PF

Empresários da cidade dizem que a expectativa é de maior procura pelo produto não embalado

20/03/17 às 23:00 - Atualizado às 13:56 Rodolfo Luis Kowalski
No Açougue América, vendas já tiveram alta (foto: Franklin de Freitas)

A Operação Carne Fraca, deflagrada na última sexta-feira pela Polícia Federal, já vem refletindo no comércio de carnes em Curitiba. Açougues consultados pela reportagem apontam queda de até 15% nas vendas desde o dia 17, com os impactos sendo mais sentidos desde ontem. Ainda assim, a expectativa é de uma forte reação nas próximas semanas, com as vendas aumentando consideravelmente diante da provável maior procura por carne fresca.

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Segundo Vilmar Agottani, proprietário da Casa de Carnes Regina, localizada no Centro de Curitiba, a quantidade de vendas caiu entre 10 e 15% desde que a operação da PF foi lançada e começou a repercutir nas redes e círculos sociais. Ainda assim, o empresário se mostra otimista. Em sua avaliação, com a perda de espaço para as carnes embaladas, que deve impactar fortemente os supermercados, a tendência é de uma melhora gradual para os açougues.

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“Diminuiu um pouco o movimento de venda e noto também que aumentou muito a pesquisa. Pessoal quer saber a origem das mercadorias, sempre perguntando de quais marcas. Para as empresas (envolvidas no escândalo) pegou pesado”, afirma. “Os grandes prejudicados serão as redes de supermercado. Já os açougues vão ser beneficiados, porque trabalhamos com carne in natura, carne fresca, e a tendência é que esse tipo de carne seja mais valorizada daqui por diante”, opina.

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No Açougue Carnes Rudnik, no bairro Água Verde, a situação é parecida. Bruno Rudnik, funcionário da empresa, aponta que alimentos ultraprocessados, como presunto e linguiça, já tiveram uma queda nas vendas. “Ainda não consigo estimar, mas foi pequeno no volume (a redução nas vendas)”. Por outro lado, a carne fresca está sendo mais procurada. “Por enquanto só tivemos o final de semana de teste, mas a princípio nossa expectativa é até aumentar o volume de vendas”, aponta Rudnik.

Por fim, no Açougue América, no bairro Jardim das Américas, os bons presságios parecem ter se adiantado e revertido em bom faturamento. Gisele Dias Gonçalves, proprietária da empresa, relata após um fim de semana normal, o movimento só na manhã de ontem já havia subido cerca de 10%.

“Na verdade, o impacto (da operação) acabou sendo positivo. O pessoal tem falado mal das grandes redes, das empresas envolvidas no escândalo. E essas vão ser afetadas. Já para a gente, a expectativa é que as vendas aumentem”, diz a empresária.

Como reconhecer a qualidade da carne

Diante dos fatos noticiados pela Operação Carne Fraca, uma pergunta fica matutando na cabeça dos apaixonados por churrasco: afinal, como garantir que o produto que estou adquirindo tem boa procedência?
A primeira dica é averiguar o local em que o produto está sendo comercializada — se o ambiente é limpo, se a carne está em um local bem refrigerado. Com relação à carne, aquela imprópria para consumo costuma apresentar cor, odor e textura alterados. Por isso, as carnes adequadas são aquelas de coloração avermelhada, textura não pegajosa e lisa e que não têm cheiro ruim.
Mais que tudo isso, contudo, é essencial encontrar um local que seja de sua confiança. “A dica principal é confiar no lugar em que você compra. Aqui, por exemplo, nós trocamos o produto qualquer problema que seja verificado, é fácil de resolver. Coisa que nas grandes redes acaba sendo mais difícil”, aponta Gisele Dias Gonçalves, proprietária do Açougue América.

 

Outros escandâlos envolvendo a indústria de alimentos

A Operação Carne Fraca, que desvelou uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários federais e empresários do agronegócio que reembalavam produtos vencidos e vendiam carne imprópria para consumo humano, está na boca do povo. O episódio, contudo, está longe de ser um caso isolado. Nos últimos anos, foram diversos os episódios de fraude de alimentos registrados pelo país. Confira abaixo alguns deles.

LEITE

Entre 2013 e 2015, foram deflagradas várias operações de combate a fraudes e adulterações na cadeia produtiva do leite. Com a chamada Operação Leite Compen$ado, o Ministério Público revelou a comerciaização de produto com formol, que é cancerígeno, água oxigenada e até soda cáustica. Segundo o MP, mais de 300 mil litros de leite adulterado chegaram a ser vendidos aos estados de São Paulo e do Paraná, especificamente nas cidades de Guaratinguetá (SP) e Lobato (PR).

CERVEJA

“Parceira” da carne nos churrascos Brasil afora, nem a cerveja escapou de se envolver em polêmicas (embora, neste caso, não se trate de uma fraude propriamente dita). É que uma pesquisa feita pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da Universidade de São Paulo (USP), revelou que a bebida fabricada pelas grandes indústrias contém 45% de milho em vez de cevada, bem próximo do limite máximo estipulado pela legislação, de 50%. A revelação resultou numa investigação do Ministério Público Federal (MPF), que recomendou às cervejeiras informar na embalagem qual o cereal substituto da cevada e a porcentagem usada.

AZEITE

Em agosto do ano passado, a Associação de Defesa do Consumidor Proteste resolveu testar 20 marcas de azeites vendidas nos supermercados. E o resultado foi surpreendente: oito das marcas foram reprovadas após passarem por análise em laboratório, quatro delas por adulteração. No caso das reprovadas, metade dizia ser azeite extra vigem, mas eram azeites comuns. Já a outra metade nem azeite era.

CHOCOLATE

Pelas regras, para ser considerado chocolate, o produto precisa ter pelo menos 25% de cacau. No Brasil, porém, um em cada três chocolates comuns, produzidos pelas grandes indústrias, não poderia ter esse nome. Segundo Marco Lessa, produtor de cacau, muitas das marcas não chegam nem a 5%. Para responder à acusação, a Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate informou que os produtos com menos de 25% são considerados doces com “sabor de chocolate”. O problema, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), é que falta informação nos rótulos, o que pode levar o consumidor ao erro. Entre 11 marcas de chocolate ao leite pesquisadas em 2013, apenas uma informou o percentual de cacau na embalagem.

CARNES

Antes mesmo da Operação Carne Fraca virar assunto, o churrasquinho brasileiro já havia sido colocado em xeque. No final de 2013, em um episódio de bem menor repercussão, uma vez que empresas de grande porte não estavam envolvidas, frigoríficos mineiros foram acusados de aumentar o peso de diferentes cortes bovinos e suínos por meio de misturas à base de água e outras substâncias líquidas, como soro de leite e colágeno. As Forças Armadas e a Sodexo, empresa de serviços de alimentação, estariam entre as principais vítimas das adulterações que visavam ampliar o lucro das empresas – não foram identificados riscos à saúde dos que consumiram os alimentos.

PEIXES

Depois das revelações da operação Carne Fraca, muita gente acabou optando por comer peixe para não se arriscar. Mas mesmo os pescados já estiveram envolvidos em fraudes. Em 2014 a Polícia Federal deflagrou a operação Poseidon, que investigou sete empresas de processamento de pescados. Para lucrar até três vezes mais do que o devido, as companhias industrializavam peixes de menor valor, como o abalote e o bagre do Vietnã, e os vendiam como se fossem linguado, além de adquirirem espécies em extinção capturadas ilegalmente.

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