Aquilo que fazíamos no tédio da nossa infância

03/04/17 às 10:57 Ronise Vilela


A simples observação de uma criança de aproximadamente cinco anos na fila de um restaurante para servir seu almoço, me fez pensar como esse mundo anda tão sistêmico, que à infância do século XXI não foi permitida sentir o tédio de o nada fazer. Nos 10 minutos de espera, o pai ficou agoniado por seu filho simplesmente aguardar a vez e logo sacou um mini tablet para a criança se distrair, ou melhor, se abduzir e não desenvolver a arte de “viajar na maionese”.

Quantas vezes na infância nos deparamos com filas em mercados, médicos, festas chatas, viagens que às vezes eram mais longas que nosso repertório de músicas e brincadeiras, de aulas que eram canceladas, mas precisávamos ficar esperando a próxima, dos dias chuvosos dentro de casa? Todas essas situações nos levavam do tédio ao universo paralelo.

Baforar na janela e fazer um desenho. Fingir que soltava uma fumaça de cigarro nos dias de neblina. Imitar o “Tubarão” de Spielberg com a música icônica dentro do mar, estralar os dedos para escutar o sonzinho, fazer escalada na porta, imaginar monstros nas portas dos armários, tentar assobiar ou fazer barulho de garrafa abrindo com os dedos na boca, imaginar como se é por dentro, tomar um pouco de detergente com água para ver se saia bolinha da boca, olhar infinitamente pela janela do carro e contar casas, pessoas, postes, veículos, cutucar o nariz, os ouvidos, a boca, fazer percussão com os dentes e as unhas, puxar os cílios, ter medo de ficar cego depois de manter os olhos fechados por muito tempo, testar o grampeador no dedão e infinitas possibilidades de viver um momento de absurdo causado pelo tédio.

Há uma ânsia dos pais em promover uma agenda full time para os filhos. Precisa do cinema, do teatro, dormir na casa do amigo, desenhar, ir à festa, no novo pesque-pague e depois cobrar a execução da lição de casa, dos afazeres domésticos e se nada disso der certo, vamos recorrer aos eletrônicos, aplicativos e programações kids enlatadas. Ora bolas, deixem as crianças saber o que é tédio. Saber lidar com os espaços vazios. Às vezes é disso que elas precisam para exercer a criatividade, a descobrir o mundo da forma simples, burlar a lei do “politicamente correto” de forma intuitiva.

Essa educação check list está formando gerações de workholics da vida. Nada natural, sem fluidez. A ausência de afazeres talvez seja uma alternativa sadia da criação e do descanso. Reflitam se não há um exagero nesse preenchimento do tempo da infância, com referências adultas. Deixemos as crianças e sua infância livres e minimamente tediosas.

Ronise Vilela é jornalista e ativista de redes sociais.

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