Trump ataca a Síria

08/04/17 às 14:05

Na mansão de Mar-a-Lago em Palm Beach na Flórida, o garçom trouxe carneiro para Xi-Jinping e um filé de carne do Texas para Trump. As esposas acompanharam o pedido dos maridos e todos sorriram durante o jantar regado a um Girard Cabernet Sauvignon Vale de Napa. Pouco antes Trump autorizou James Cachorro Louco Mattis, Secretário de Defesa, a bombardear a base aérea síria de Homs, a provável origem do lançamento de ogivas com gás sarín em Khan Sheikhoun que, dois dias antes, mataram 72 pessoas (11 crianças) e deixaram 700 feridos. Mattis agiu com prazer, lançando 86 poderosos foguetes Tomawhak dos seus navios fundeados no mar Mediterâneo. Surpresos, mas de barriga cheia, os chineses reiteraram que condenam armas químicas de qualquer tipo e se opõem ao uso de força em disputas internacionais. Enquanto isso, Putin considerou o ataque uma agressão a um estado soberano, repetindo que a Síria não possui armas químicas e Mijail Emiliánov, presidente da Duma (Câmara dos Deputados) disse que a ofensiva contra a base de Homs pode levar a um enfrentamento direto com os EUA. Por seu lado, a Coalisão Nacional Síria (de oposição a Assad) declarou-se contente “com o fim da impunidade”. Para o regime de Damasco, quem tem armas químicas são as forças opositoras.

Cerca de 1.300 toneladas de gás sarín e precursores foram removidos pela ONU da Síria nos últimos 4 anos, mas agora fica evidente que isso não é tudo. Outra possibilidade é de que tenha sido usado o Agente VX, o mesmo que matou o irmão de Kim Jong-um no aeroporto de Kuala Lumpur. Os efeitos para as vítimas são os mesmos: convulsões boca espumando, rigidez muscular, redução violenta da pupila, câimbras.

Esta é a primeira ação militar norte-americana contra o regime de Assad, mas o mundo ainda permanece em expectativa, por não saber se Trump agiu de maneira impulsiva ou se isso seria parte de uma estratégia. Caso tenha sido apenas para impressionar seu visitante chinês (viu o que pode acontecer com a Coréia do Norte?) e dar um susto em Putin para poder negociar a partir de uma posição mais poderosa, a opinião dos analistas é de que causará mais mal do que bem.

A Síria não é uma brincadeira. Sete anos de guerra já deixaram 465 mil mortos, 1 milhão de feridos e 12 milhões de exilados. Hoje, aproximadamente 35% do território é controlado por forças sunitas e alauitas fiéis a Bashar al Assad, 30% é dos curdos, 15% está com o Exército islâmico, 15% é da oposição e o restante está dividido entre turcos e americanos ou em disputa. Por ora, a guerra continua.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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