“Baleia Azul”: casos suspeitos espalham-se pelo Paraná e assustam

Ocorrências foram registrados em Curitiba, Cascavel, Campo Mourão e Pato Branco nos últimos dias

19/04/17 às 23:00 - Atualizado às 20:43 Rodolfo Luis Kowalski
O secretário de Segurança Pública, Wagner Mesquita (centro), fala sobre a criação da força-tarefa em Curitiba (foto: Franklin de Freitas)

O número de casos de automutilação e tentativa de suicídio entre jovens em que há suspeita de relação com o jogo “Baleia Azul” não param de aumentar no Paraná. Desde a madrugada de terça-feira foram pelo menos 13 casos registrados no Estado, dos quais oito em Curitiba, dois em Campo Mourão, na região Centro-Oeste, outros dois em Cascavel, na região Oeste, e um em Pato Branco, no Sudoeste paranaense.

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No “jogo”, os adolescentes recebem mensagens em redes sociais com tarefas a serem cumpridas. Nas conversas, um grupo de organizadores, chamados “curadores”, propõe 50 desafios macabros aos adolescentes, como fazer fotos assistindo a filmes de terror, automutilar-se desenhando baleias com instrumentos afiados no corpo e ficar doente. A última tarefa é sempre tirar a própria vida.

Pais devem adotar postura preventiva quanto ao uso de internet em casa

Quanto aos casos registrados no Paraná, ainda não há confirmação oficial da relação do jogo com a maior parte das ocorrências. Em Cascavel, porém, uma adolescente de 15 anos que foi atendida numa unidade de pronto atendimento depois de tentar se matar e se automutilar relatou ter participado do “Baleia Azul”. Ao todo, foram seis tentativas de suicídio e outros seis casos de automutilação registrados no Estado nos últimos dias.

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Diante da crescente de ocorrências, a Prefeitura de Curitiba, o Governo do Estado e mesmo a Câmara de Vereadores já manifestaram preocupação. Em Curitiba, inclusive, foi criada uma força-tarefa envolvendo o Centro de Operaçõs Policiais Especiais (Cope), a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e o Núcleo de Crimes Cibernéticos (Nuciber), que estão investigando a relação do jogo com os oito casos de automutilação e tentativa de suicídio registrados na cidade, enquanto psicólogos do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria) apoiam no atendimento às vítimas e famílias.


Em entrevista coletiva, ontem, o secretário de Segurança Pública, Wagner Mesquita, tratou de explicar que a ação policial é algo pontual, sendo necessário o apoio de outros órgãos governamentais para a prevenção ao suicídio. “A ação policial é algo pontual em função da ação de criminosos que estão incidanto o suicídio. Mas para lidar com essa situação precisamos dos outros órgãos oficiais, de outras ações governamentais que possam criar uma política preventiva de forma a auxiliar os jovens a lidarem com suas frustrações”.

Havendo qualquer indício, como sinais de autolesão ou de participação em grupos sobre o jogo, o recomendado aos pais é que registrem a ocorrência na delegacia de Polícia Civil de seu município. Em Curitiba, devem procurar a DHPP, que funciona 24 horas, ou o Nucria. Além disso, é essencial buscar apoio de profissionais especializados, como psicólogos e psiquiatras, dependendo do caso. “Estamos orientando os policiais para recepção dessas notícias e como tratar o material apreendido”, finalizou o secretário.

 

Bullying e ansiedade atormentam os jovens

Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2015, dedicado ao bem-estar dos estudantes, ajudam a compreender a fragilidade psicológica dos adolescentes brasileiros e o risco de exposição a um jogo como o Baleia Azul.
Segundo o estudo, aproximadamente um em cada dez jovens são vítima frequente de bullying nas escolas, sendo que 17,5% disseram sofrer alguma das formas de bullying “algumas vezes por mês”; 7,8% disseram ser excluídos pelos colegas; 9,3%, ser alvo de piadas; 4,1%, serem ameaçados; 3,2%, empurrados e agredidos fisicamente. Outros 5,3% disseram que os colegas frequentemente pegam e destroem as coisas deles e 7,9% são alvo de rumores maldosos.
Outro dado que chama a atenção é que os estudantes brasileiros despontam na pesquisa como os mais ansiosos do mundo: 80,8% ficam muito ansiosos mesmo quando estão bem preparados para provas. A média mundial é 55,5%.
“Esses resultados sugerem a necessidade de relações mais fortes entre escolas e pais para que os adolescentes tenham o apoio de que necessitam, acadêmica e psicologicamente. Essa aproximação poderia contribuir muito para o bem-estar de todos os alunos”, diz o relatório..

 

Curadores podem ir para a cadeia

Os jovens que participam do jogo Baleia Azul são convocados, geralmente, em grupos fechado no Facebook e no WhatsApp. A “brincadeira” começa depois que um curador propõe os 50 desafios, sendo que o último sempre é o suicídio. E segundo a Polícia Civil, essas pessoas, bem como os administradores dos grupos em redes sociais, podem ser indiciados.
Em entrevista coletiva na Secretaria de Segurança Pública (Sesp-PR), as autoridades explicaram que o indiciamento se daria pelo fato de esses curadores fazerem uma espécie de lavagem cerebral para obrigarem os jogadores a realizar as tarefas propostas. O Código Penal, inclusive, tipifica em seu artigo 122 o crime de induzimento, instigação ou auxílio a suicídio, com penas variando de dois a seis anos (caso o suicídio se confirme) ou de um a três anos, caso a tentativa de suicídio resulte em lesão corporal de natureza grave. Além disso, a pena pode ser duplicada se a vítiam for menor de idade oi tiver, por qualquer causa, diminuída a capacidade de resistência.

 

Diálogo entre pais e filho é essencial

De acordo com a psicóloga e doutoranda em psicanálise, Ana Suy Sesarino, pensar na morte é algo normal, que faz parte da nossa constituição psíquica, em especial na adolescência. “O encontro com essa descoberta em torno da liberdade/solidão, próprio da adolescência, pode levar vários jovens a imaginarem como seria a sua morte, como seria a reação das pessoas diante da morte dele, e pode levar ao desejo de morte — não como quem quer morrer, mas como quem quer levar o outro a sentir sua falta”, explica.
Por isso, explica a especialista, é essencial que os pais conversem com seus filhos. “Mas não sobre suicídio ou aquela coisa de ‘como está a escola’. É conversar sobre a vida, trivialidades. Assistir um filme e falar sobre, perguntar o que o jovem achou do filme. Os pais precisam ajudar o adolescente a construir o seu próprio modo de ver o mundo”.
“Nossa estratégia deve ser de atenção e de acolhimento aos jovens e às famílias. Vamos reforçar a importância do diálogo na família”, diz a secretária municipal da Educação de Curitiba, Maria Sílvia Bacila

 

Educação reforça monitoramento

Integrantes das secretarias Municipal e Estadual da Educação, da Fundação de Ação Social (FAS), do Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe) e do programa Crer-Ser Fraterno participaram, ontem, de reunião para orientar os estudantes sobre o “jogo” Baleia Azul. “A escola tem papel formador e um professor atento em sala de aula pode identificar tranquilamente quando um jovem apresenta sinais diferentes do habitual”, defendeu a presidente do Sinepe, Esther Cristina Pereira.

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