Nova Eugenia

09/05/17 às 00:00 Por Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

Aparentemente cresce um certo radicalismo nas redes sociais, com misoginia e racismo cada vez mais evidentes, ou pelo menos sem receio de expor-se à luz do dia. Desde a vitória de Trump, a evolução da candidatura de Marine Le Pen na França, e algumas possibilidades mais radicais em território brasileiro, temos assistido certa inflexibilidade em opiniões e comportamentos que deixam a desejar em termos de gentileza e solidariedade.

Paralelamente, evoluem alguns ramos da ciência, entre eles as pesquisas genéticas, com perspectivas de curas de doenças, manutenção da saúde e integração das muitas tecnologias da hereditariedade nas políticas públicas e programas médicos de alcance popular; mas reacendendo ao mesmo tempo a ideia de eugenia. Esta doutrina, estabelecida em meados do século XIX por Francis Galton, cientista aficionado da seleção das espécies, pretendia o aprimoramento da raça humana, enfatizando as características desejáveis, como determinadas cores de pele, olhos e cabelos, inexistência de males transmissíveis geneticamente, em detrimentos de outras consideradas negativas.

Tal teoria de melhoramento do patrimônio genético é restritiva, implicando em esterilização, eliminação daqueles considerados incapacitados, restrição aos imigrantes – já que estes poderiam não se encaixar nos atributos estabelecidos como positivos pela população receptora.

Esta meritocracia biológica incluía selecionar bons reprodutores, interferência estatal na escolha de parceiros, modificar a forma romântica com que casamentos foram vistos ao longo dos anos. Na Alemanha nazista esta receita foi seguida entusiasticamente, com os resultados trágicos conhecidos, mas o sonho da obtenção de seres humanos “superiores” justificaria todas as atrocidades cometidas.

Assistimos hoje ao nascimento de uma “nova eugenia”, não mais baseada no indivíduo, mas sim na família, que objetiva o bem comum da humanidade, e para isso fundamentada em diretrizes e princípios visando o bem comum. O Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990, tem objetivo de mapear, descrever e identificar genes relacionados a distúrbios, doenças de base hereditária – que interessam sobretudo aos pediatras, e aquelas que futuramente se manifestarão na velhice, antes do aparecimento dos sintomas. O discutível é até que ponto uma criança deveria saber de algum comprometimento futuro, e algumas instituições, como a Academia Americana de Pediatria, sugerem que estes exames sejam postergados até a idade adulta.

Com a ampla evolução dos testes genéticos, somos levados a um impasse, pois em quais regras nos basearemos para decidir sobre o que é efetivamente um problema sério, sobre a pertinência da interrupção de uma gravidez, pois questões religiosas ou até filosóficas precisam ser levadas em conta. Seguradoras podem interessar-se em saber previamente as condições atuais e futuras de um possível segurado, sem contar lucros de alguns laboratórios que desenvolvem determinados medicamentos, programas de informática que auxiliam terapias genéticas, com o mercado interferindo decisivamente no processo: saúde é, afinal, um bem de consumo, devorador de recursos governamentais.

Em recente palestra disponível pela internet, um cientista norte-americano simulou com a plateia a situação em que se está num parquinho com sua filha, uma criança normal com todas as suas pequenas mazelas, e ao lado brincando uma outra menina projetada geneticamente: linda dentro dos cânones de sua sociedade, sem doenças, mais inteligente que a média. Perguntou então à plateia: se fosse ter outro filho, você resistiria?

A probabilidade de identificar genes associados a determinadas enfermidades, ou até a vulnerabilidades e comportamentos, sempre provocará questões éticas, sociais ou mesmo legais; assusta pensar que estamos cada vez mais – e não menos como seria de se esperar – preconceituosos e agressivos.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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