Fabricantes de tablets apostam em“nichos”

Para reverter queda de vendas, eles miram em crianças, idosos, públicos específicos

17/05/17 às 23:00 - Atualizado às 22:36 Matheus Mans
Em busca de novas funcionalidades para os tablets (foto: Divulgação)

Já faz sete anos desde o lançamento da primeira versão do iPad, pelas mãos de Steve Jobs. Neste período, o segmento passou por uma 'montanha-russa' de emoções: se tornou promessa do mercado, ganhou relevância e, desde o ano passado, amarga um baixo volume de vendas. Os fabricantes, agora, tentam manter a categoria 'viva' apostando em nichos.

De acordo com a consultoria IDC Brasil, foram vendidos apenas 4 milhões de tablets no Brasil em 2016 - uma queda de 32% em relação ao ano anterior. Em 2017, apesar de apontar para uma relativa estabilidade, o setor deverá cair ainda mais: devem ser vendidas 3,7 milhões de unidades, numa queda de 7,5% em relação ao ano passado.

"A tela do celular cresceu e acabou tomando espaço dos tablets", explica o analista da IDC Brasil, Wellington La Falce. "Esse tipo de dispositivo deixou de fazer sentido para a maioria das pessoas e das empresas."

Segundo apurou o jornal O Estado de S. Paulo, a falta de interesse dos consumidores espantou as fabricantes: se no auge da categoria, 14 empresas disputavam o mercado no Brasil, atualmente DL, Samsung e Multilaser são responsáveis por 80% das unidades vendidas.

O restante está nas mãos de marcas menores, como Philco e Lenoxx A Positivo, que também tinha uma fatia, decidiu encerrar a produção para o varejo no ano passado. "Com foco em nichos diferentes, essas três empresas estão navegando sozinhas", disse uma fonte do mercado à reportagem, que preferiu não se identificar. "É um movimento mundial no mercado de tablets, que ‘afunila’ as empresas interessadas no setor."

Nos tablets mais baratos, as brasileiras DL e Multilaser competem juntas, apostando em aparelhos entre R$ 200 e R$ 300 e que alcança as classes econômicas C e D. As duas empresas dizem não sentir os efeitos da crise que atinge o setor.

"A gente dorme, acorda e respira pensando em tablets", afirma o diretor comercial da DL, Francisco Hagmeyer Júnior. Segundo ele, 60% do faturamento da empresa está no segmento de tablets. "O setor está mais concentrado. Há três anos, eram mais de 50 empresas fabricando tablets. Hoje, somos apenas três."

Com 20% de seu faturamento no setor de tablets, a Multilaser espera que as vendas não continuem a cair. "A queda já aconteceu", afirma o presidente executivo da Multilaser, Alexandre Ostrowiecki. "Pretendemos aumentar a participação da Multilaser com mais lançamentos em 2017."

Enquanto isso, a Samsung reina praticamente sozinha no segmento de tablets na faixa intermediária, entre R$ 500 e R$ 800 - há alguns anos, não era possível encontrar tablets da marca com preço inferior a R$ 1 mil. "Há uma necessidade crescente por tablets que com melhor desempenho", diz o gerente sênior de produtos da área de dispositivos móveis da Samsung Brasil, Renato Citrini. "Continuamos a apostar nesse mercado."


Aparelhos sob medida para crianças

Além de focarem em faixas de preço diferentes, as fabricantes em todo o mundo também estão tentando criar tablets para públicos como crianças e idosos. Os "pequenos" tem se tornado um dos principais alvos das fabricantes, que licenciam marcas para deixar os dispositivos mais atrativos.

"Os pais não querem dar aos filhos um smartphone, por conta da segurança, por isso resolvem comprar um tablet", afirma La Falce, da IDC Brasil. Quando desconectado da rede Wi-Fi, os dispositivos não permitem acessar redes sociais e fazer ligações, por exemplo.

A DL tem, em sua linha de produtos, tablets de cachorros e até da Hello Kitty. "Vamos focar nas crianças", diz Hagmeyer. "É nosso público."

Já a Positivo, que desistiu do varejo e só fabrica sob demanda para empresas ou governo, já vê um novo horizonte. "O mercado dos tablets está nas escolas", afirma a gerente de produtos da Positivo, Cinthya Ermoso. "Ele pode deixar a educação muito mais prática."


Ideal para pagar contas  e ler quadrinhos 

Encontrar um tablet a um preço acessível. Era só isso que pensava a microbiologista Caroline Freire, de 32 anos. Em uma viagem a Curitiba, a paulista se encantou com uma nova forma de ler seus quadrinhos. "O tablet é bem mais confortável. O computador é pesado e esquenta muito. O espaço do teclado também atrapalha porque a tela fica afastada de você", explica ela.

Em fevereiro, ela comprou seu primeiro tablet. Além de economizar espaço na estante, a compra ajudou Caroline, a economizar: "Há vários sites que oferecem títulos de graça, então, além de prático, é econômico. Em seis meses, eu já cobri o valor da compra do tablet."

Caroline, porém, não gosta muito de usar o dispositivo para outras atividades. "Acho ruim de digitar", diz a microbiologista "Se não fosse meu hábito de ler quadrinhos, acho que só compraria se tivesse filhos."

Foi exatamente essa a motivação de Luane Moreira, de 45 anos, para comprar um tablet. "Meu filho ficou um ano inteiro pedindo para ganhar um tablet, só que eu tinha medo de não conseguir controlar o tempo que ele passa usando isso", conta a técnica em segurança do trabalho. Ela e o filho Lorran moram em Piraí do Sul, no Paraná, onde o menino de 12 anos o carrega para cima e para baixo.

Em casa, o menino usava o computador para ver desenhos na internet. "Mas o que ele queria mesmo era assistir aos programas em todo lugar que estivesse", diz Luane, que não deixa ele levar o aparelho para a escola, para que a diversão não atrapalhe os estudos. Ela decidiu ceder quando o filho escolheu abrir mão de um ovo de Páscoa para ganhar o aparelho.

Para Lorran, a tela de um celular é pequena demais para a diversão. "Nunca uso telefone para falar, então quis um tablet, que tem uma tela maior, bem melhor para assistir meus programas favoritos", diz o menino. Quando não está vendo vídeos, Lorran usa o tablet para trocar mensagens com os amigos pelo WhatsApp.

Primeiros passos — Já aposentada Omenar Schmitz, de 87 anos, está aprendendo a usar o tablet. Ela quer usar o aplicativo WhatsApp, por exemplo, para conversar com a família.

O filho também tem ajudado a aposentada a pagar contas no banco usando o aparelho. Antes, ela pagava as contas no caixa eletrônico, mas com a introdução de tecnologias como biometria, ela deixou de usar por não entender como funciona.

 

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