Confrontos entre torcidas já provocaram pelo menos sete mortes no Paraná

Levantamento aponta que torcedores do Trio de Ferro também foram vítimas de brigas entre organizadas

18/06/17 às 22:00 - Atualizado às 19:48 Rodolfo Luis Kowalski
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Os recorrentes episódios de violência no futebol por pouco não fizeram mais uma vítima, ontem. É que um torcedor do Corinthians foi espancado por torcedores do Coritiba nas proximidades do estádio Couto Pereira, horas antes da partida entre as duas equipes, e precisou ser internado em estado grave no Hospital do Trabalhador, no Novo Mundo. Ele recebeu alta de tarde.

Desde outubro de 1988, quando ocorreu a primeira morte ligada ao futebol que se tem registro, em São Paulo, pelo menos 304 pessoas perderam a vida enquanto torciam para os seus times. E o futebol paranaense também aparece neste cenário quando o assunto é violência no futebol. No período, sete torcedores de Atlético Paranaense, Coritiba e Paraná morreram. Por outro lado, outros sete torcedores da dupla Atletiba também tiveram envolvimento na morte de adeptos de outras equipes. A maioria desses casos foram registrados nos últimos anos.

Ontem, a vítima das agressões por parte de torcedores de uma organizada do Coritiba foi um homem de 29 anos. Ele chegou a ser dado como morto pela Polícia Civil, mas mais tarde o delegado Clóvis Galvão, da Delegacia Móvel de Atendimento ao Futebol e Eventos (Demafe), corrigiu a informação, revelando que o corintiano fora reanimado dentro de uma ambulância e encaminhado em estado grave ao hospital. Além dele, pelo menos outros cinco torcedores ficaram feridos, dois deles com fraturas.

Imagens que circularam nas redes sociais mostraram as agressões, com ele recebendo chutes e pauladas mesmo após cair no chão. Foi por causa dessas filmagens, inclusive, que a polícia conseguiu localizar, ainda durante a partida no Couto Pereira, um dos suspeitos de ter agredido o corintiano. Ele teria sido identificado pelo sapato que usava e foi preso enquanto assistia ao jogo. Agora, responderá por tentativa de homicídio.

Foi o segundo episódio grave de violência no futebol paranaense registrado neste ano. Em fevereiro, antes do clássico Atletiba na Arena da Baixada, um adolescente de 15 anos, torcedor do Coritiba, foi morto por um policial que fazia a escolta dos torcedores ao estádio. Segundo a Polícia Militar, a arma teria disparado acidentalmente, quando os oficiais tentavam dissipar uma confusão entre os torcedores.


Grupo desviou de rota, diz polícia

Na tarde de ontem, o comando da Segurança Pública do Paraná falou sobre o confronto entre parte das torcidas de Coritiba e Corinthians. O secretário de Segurança, Wagner Mesquita, ressaltou o trabalho realizado pela polícia antes da partida, mas que o grupo que acabou em confronto no Alto da Glória se desviou do trajeto.

Neste domingo, foram cerca de 50 os ônibus da torcida visitante. Entretanto, três ônibus e uma van do Corinthians não acataram as ordens e fizeram um trajeto diferente do que havia sido acordado com a polícia, desembarcando muito próximo da torcida rival”, disse Mesquita.

“É feito um rigoroso planejamento preventivo e ostensivo. A Polícia Militar é responsável pela interlocução com todas as torcidas organizadas, que são recebidas em pontos pré-determinados na capital, escoltadas e desembarcadas no estádio”, afirma.

Já outros 38 ônibus vindos de São Paulo e outros oito coletivos de torcedores corintianos de Curitiba tiveram escolta da PM e chegaram ao estádio sem imprevistos, segundo informações do comandante do 12º Batalhão da PM, tenente-coronel Wagner Lúcio dos Santos.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, foram seis os feridos atendidos ontem, relacionados ao jogo de futebol.


Brigas e vexames “históricos” no Estado

Os casos de violência envolvendo torcedores de clubes do Paraná, contudo, não se limitam aos casos citados. Além deles, dois episódios marcaram a história do futebol brasileiro, um deles registrado em 2009 e outro em 2013.

No primeiro, em 6 de dezembro de 2009, torcedores do Coritiba invadiram o gramado do Couto Pereira após o empate em 1 a 1 com o Fluminense, que selou o rebaixamento da equipe paranaense para a segunda divisão no ano de seu centenário. Revoltados, torcedores ligados à uma organizada invadiram o gramado e iniciaram uma briga generalizada, que continou depois fora do estádio, onde um jovem foi baleado.

Já em 2013, novamente em uma partida derradeira de Brasileirão, torcedores do Atlético e do Vasco iniciaram uma grande briga nas arquibancadas, o que obrigou a interrupção do jogo por mais de uma hora. Quatro pessoas precisaram ser levadas ao hospital e foi preciso o apoio de um helicóptero para atender os feridos na Arena Joinville — a partida foi disputada em Santa Catarina porque a Arena da Baixada ainda passava por reformas visando a Copa do Mundo.

Segundo o sociólogo Mauricio Murad, o Brasil é o país onde mais se morrem torcedores em função de brigas. Professor da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), o especialista estuda há 26 anos a violência no futebol e é autor do livro “Para entender a violência no futebol”.


Clubes reagem contra a violência

Após o confronto entre torcedores de Coritiba e Corinthians, ontem, os dois clubes se manifestaram por meio de seus sites oficiais. O Coritiba divulgou uma nota de repúdio. “Em nome da decência, o clube manifesta sua reprovação aos fatos ocorridos. Além disso, o Coritiba declara sua postura de absoluta colaboração para as investigações e demais esclarecimentos a fim de punir os envolvidos por tal conduta reprovável”, diz a nota. No site do Corinthians, uma mensagem lamenta mais um episódio de violência entre torcedores e pede paz. “Infelizmente a derrota é de todos”, diz a mensagem no site do clube.


Solução vem com o fim da impunidade

A esses casos ainda se somam outros três registrados nos últimos anos no Paraná. Em novembro do ano passado, a Delegacia Móvel de Atendimento ao Futebol e Eventos (Demafe) prendeu um homem suspeito de tentativa de homicídio contra um jovem durate uma briga de torcidas no terminal do Sìtio Cercado. Torcedor do Atlético, o suspeito havia atirado duasvezes em um jovem de menos de 18 anos, que chegou a ficar três dias internado.

Já em 2012 e 2014, foram outros dois casos, que terminaram em morte. Primeiro, em Curitiba, um paranista de 16 anos, da Fúria Independente, levou um tiro no rosto disparado por integrantes da Fanáticos, do Atlético, que passaram com quatro carros em frente a sede da torcida rival. Dois anos depois, outro torcedor do Paraná foi morto no Estádio Arruda, quando acompanhava a partida de sua equipe contra o Santa Cruz. Ele foi atingido por um vaso sanitário arremessado da arquibancada da torcida adversária.

“Existe uma cultura de violência. Ela é generalizada, mas no caso brasileiro, ela é mais aguda”, aponta o sociólogo Mauricio Murad, que destaca o fim da impunidade como essencial para se garantir a paz nos estádios (e seus arredores). “O problema da violência tem se repetido e as medidas para resolver este problema têm sido ineficientes. Isto acontece no mundo todo, mas a impunidade no Brasil ela é uma coisa drástica, radical, que estimula novos delitos.”


Rápida

Agressores

Além do homem preso ontem, a polícia procura identificar outras sete pessoas que teriam participado das agressões contra o corintiano. De acordo com a polícia, a vítima desceu do ônibus, que estava estacionado ao lado do Couto Pereira, com a intenção de confrontar a torcida organizada adversária, quando foi alcançada pelos rivais e agredida. A troca de informações com a polícia de São Paulo, a respeito das torcidas, foi intensificada.

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