Biografia mostra o espírito combativo de Clara Nunes

Cantora se valia das religiões para lidar com a fragilidade emocional, embora tivesse incrível capacidade de auto-superação

29/11/07 às 00:00 - Atualizado às 13:46 Agência Estado
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Nas festas de Natal e ano-novo de 1982 meses antes de ser internada na clínica São Vicente, na zona sul carioca, para uma cirurgia de retirada de varizes, a cantora Clara Nunes disse a seu marido, o compositor Paulo César Pinheiro: "Pois é, nunca mais vou ver isso aqui." Ela se referia à terra onde nascera, Caetanópolis, em Minas Gerais, e que visitava todo fim de ano para rever os parentes. Intuitiva e mediúnica, Clara Nunes era o sincretismo em pessoa: católica, kardecista e umbandista.

Sentia as energias espirituais no ambiente onde estivesse, como pressentiu o fim próximo. Ela se valia das religiões para lidar com a fragilidade emocional, embora tivesse incrível capacidade de auto-superação. Esse perfil multifacetado às vezes contraditório, é descrito no livro "Clara Nunes - Guerreira da Utopia" (Ediouro, 320 págs.), do jornalista Vagner Fernandes, que dedica dois capítulos à internação de Clara e à sua polêmica morte, em 2 de abril de 1983, 28 dias após a operação malsucedida.
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Fernandes foi o primeiro a fazer, em quase 25 anos após a morte dela, uma entrevista longa com o angiologista Antonio Vieira de Mello, que operou Clara Nunes e que a pedido do biógrafo solicitou o desarquivamento da sindicância do Conselho Regional de Medicina do Rio sobre a morte da cantora. "Surgiram várias especulações sobre a internação da Clara, desde aborto e inseminação artificial até surra dada pelo Paulo César Pinheiro" diz Fernandes. "Ela morreu porque teve um choque anafilático, reação alérgica a uma substância que até hoje não se sabe qual é", continua.

Não poderia ser inseminação artificial, porque Clara se submetera em 1979 a uma histerectomia (remoção do útero), após três abortos espontâneos. Por nutrir obsessão pela maternidade, a impossibilidade de ser mãe causou a Clara Nunes fortes abalos emocionais, superados por uma postura mais ativa na defesa da música nacional e pela entrega absoluta à carreira artística, que chegou ao auge nos anos 1970, quando se envolve com o samba e se torna a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias. Quebrava-se o tabu segundo o qual mulheres não vendem disco.

"Clara teve muitos dissabores na vida, e é função do biógrafo abordar as zonas obscuras da vida do personagem", explica Fernandes. Nascida em 12 de agosto de 1942, Clara Francisca Gonçalves era órfã de pai e mãe já aos 6 anos. Aos 15, deixa Caetanópolis, a 100 quilômetros de Belo Horizonte, para morar na capital mineira. Estava acuada pelo assassinato de um namorado, cometido em 1957 por seu irmão, José Pereira Gonçalves

Na capital, continua a ser tecelã, profissão logo dispensada, pois Clara já se arriscava como crooner na noite belo-horizontina. Nessa época, ela conhece o playboy Aurino Araújo, que em 1965 se muda com ela para o Rio. A Jovem Guarda tinha estourado e a cantora mineira flerta com ela, mas sem sucesso. Clara Nunes teve dificuldade de firmar uma identidade musical. No início da carreira, a Odeon, gravadora que lançou todos os seus trabalhos, insistia que ela interpretasse músicas românticas. Em vão. Nem a febre dos festivais de canções acertou Clara em cheio.

A virada romperia no início dos anos 1970 com o produtor e radialista Adelzon Alves, cujo programa tocava composições de sambistas. Seria o início da parceria profissional e amorosa que define Clara como a intérprete que resgata o visual e a sonoridade afro-brasileiros. "Desde Carmen Miranda, não surgia uma cantora com esse perfil", diz Fernandes. Quando lança o LP Clara Nunes, em 1971, a mineira faz permanente nos cabelos pintados de vermelho e passa a vestir roupas que remetem às religiões afro-brasileiras. Estava criado o mito.

Mas ela não podia ser apenas uma sambista ou "cantora de macumba". Segundo o autor da biografia, Clara teria o repertório musical ampliado pelo marido, Paulo César Pinheiro, a partir de 1975. Com o compositor, a mineira - filha de Ogum com Iansã - exploraria sua potência vocal e se consagraria como uma das maiores cantoras da música popular brasileira.
10 Comentários

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valquiria
eu amo muito clara nunes ela alem de ser unica para mim me féis conhecer o samba amá-la de uma tal forma,e a conhecer musica boa,pena que nos brasileiros não sabemos o que e musica boa.gosto de canta todas as musicas dela ela e de mais para mim.meu amor por ela e infinito salve clara claridade clarinha ,mineira guerreira e tudo mais de bom
M. do Carmo
Ouvi tanta coisa após sua morte, naquela ocasião também fiz uma cirurgia, coincidentemente dizem que sou filha de Iançã , era quaresma, ninguém era a favor da minha cirurgia, pra mim correu tudo bem,até hoje lamento sua morte. Era linda, não cheguei a vê-la pessoalmente, minha irmã, que já está na esfera espiritual, teve oportunidade de conhece-la. Sempre vou lembrá-la com carinho . Saudade minha linda.
tereza barros
fui,sou e sempre serei apaixonada por clara nunes,como eu gostaria de vela pena que eu nao tenho esse dom,mas ela sabe que tem uma fa desde pequena.seja feliz minha rainha.
valdeci
A Clara Morena, representa para mim todo o simbolismo da mulher verdade, pelo seu caráter e postura diante da sociedade, é a passagem incomparável que tivemos oportunidade de tomar conhecimento, para uma dama que se assume por completo.
santino
o que houve realmente foi um grande erro médico e que seu esposo paulo não tomou as devidas providencias pela justiça para que os culpados fossem condenados...ninguem morre sádio.......clara estava sã....
Jose Andrade Pimentel
Independente de qualquer estilo, ou gênero, ela foi, e será eternamente, a melhor cantora brasileira.Jamais surgirá outra, de nível voz, e visual tão marcante.
SÃO PAULO-SP
Alex Acioli - Macapá/AP
Filha de Ogum com Iansã,
Eparrei, Oyá!

A maior cantora brasileira de sua geração.

Um exemplo a ser seguido.
guilherme
bom para mim clara teve muita importancia na minha vida.conheço todos os trabalhos dela .recentemente compreio dvd e o cd. resumindo clara e tudo para mim.
Carlos Decarvalho
Falar de Clara Nunes e um pouco dificil, porem todos nos sabemos que O Brasil jamais tera uma cantora a nivel de Clara nunes, moro nos estados unidos a mais de vinte anos e ouco as musicas de Clara todos os dias , suas musicas e suas mensagens espirituais so nos dar muita forca, Clara sempre tera seu nome na historia da musica popular brasileira, Eu so lamento que ela era muito jovem e tinha muito o que nos oferecer, Mais acredito tambem que onde esteja , Clara esta feliz distribuindo aquele Amor nos protegendo Clara que raca que e filha de Santo e de Santa querreira que surge toando seu canto de vida eparre, Iansa
gloria
O resumo da vida de Clara Nunes é muito bom, mas há uma divergência no ano do nascimento é 1942 ou 1943 e tb nunca soube de nenhum comentário que seu marido batia nela, gostaria que estas informações fossem esclerecida.Obrigada.
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