Incertezas que contaminam

18/07/17 às 00:00 Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

A teoria econômica tem estudado muito a questão da incerteza, ou seja, as mudanças nos cenários econômicos globais em função das “informações” que agentes atuantes na sociedade possuem e que possibilitam (ou não) alguma previsão de resultados futuros de cada decisão tomada no mercado financeiro ou agenda econômica.

Sabe-se, sempre à luz destas pesquisas, que indivíduos submetidos a situações de incerteza apenas se preocupam com o melhor e com o pior dentre os resultados que são capazes de prever com grau suficientemente alto de confiança para um determinado curso de ação, ou seja, suas expectativas ficam focadas apenas neste par, como se desaparecessem todas as opções intermediárias, o que termina levando a uma definição da incerteza como incapacidade de tomadores de decisão de definir uma listagem um pouco mais completa – e, portanto, mais realista – de todos os eventos possíveis.

A formação de expectativas e a tomada de decisão passam a consistir num processo de dois estágios, e no primeiro deles é indispensável construir uma teoria ou modelo de mundo que será utilizado para prognósticos, e quando os fatores externos parecem indicar uma mesma conjectura, este modelo de mundo se torna uma convenção.

No segundo estágio, correspondente à realização da ação correspondente à predição, todos estarão em maior ou menor grau sujeitos à mesma “teoria do mundo”, porque essa pode sobrepujar aquilo que seriam as “preferências naturais” das pessoas mais ou menos otimistas ou capacitadas.

Será necessária muita criatividade para a criação de diferentes pressuposições partindo-se de um mesmo presságio.

Situações de incerteza, pessoal, institucional, econômica, política, quando passam da fase em que podem ser racionalizadas com relativa facilidade, resultam em insegurança. E a insegurança leva normalmente a níveis elevados de radicalização. O extremismo, a polarização descontrolada, são consequência também da dificuldade de refletir determinadas situações ou escolhas levando em conta aspectos mais complexos; é mais fácil atribuir os percalços da economia e da política a “eles”, todos aqueles que não são “nós”, não pensam como nós, não votam como nós, não torcem para nosso time, não são da nossa “raça”, não partilham nossa crença religiosa, talvez sequer morem na mesma região que nós. São, portanto, inimigos do povo, exploradores, ignorantes, coxinhas, mortadelas, burgueses, proletários, reacionários, revolucionários, aparentemente são tudo menos o que são na realidade: humanos. Como nós.

Em educação cometemos erros semelhantes. Colocados frente à complicadíssima e seríssima questão de definir para quem a escola se voltará, e na incerteza acerca do perfil de aluno a quem deve se dedicar com mais afinco, tendemos a simplificar: ora entendendo que o aluno é aquele que deseja ardorosamente aprender e reúne as melhores condições para isso, ora acreditando que o aluno é um caso perdido e não há para ele nada a oferecer a não ser uma pífia tentativa de inclusão.

Ambos não consistem na maioria dos estudantes, embora, claro, existam em todas as escolas e salas de aulas; e aqui também vemos que a formação de expectativas, que permitiria a boa decisão educacional, muitas vezes não permite o estabelecimento de um correto modelo de mundo – neste caso, do mundo escolar – dado que a insegurança política e social pauta convenções radicalizadas.

A superação das incertezas em que estamos imersos possivelmente melhoraria nossa capacidade de discernimento das características de grande parte do alunado, que não estando em nenhum desses extremos, deseja aprender até por acreditar que disso resultará melhoria em sua própria vida, assim como os problemas e dificuldades que trazem são muitas vezes perfeitamente sanáveis por um trabalho conjunto entre família e escola.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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