A palavra escrita

25/07/17 às 00:00 Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

Os pais costumavam brincar orgulhosos quando suas crianças começavam a frequentar a escola dizendo que iam “aprender o beabá”, e mesmo hoje quando os métodos de letramento são outros não se pode ignorar a importância de decifrar signos, reproduzi-los e entender que a junção da letra B com a letra A forma o vocábulo BA, é onde se inicia a educação formal.

Isso é tão mágico quanto chegar à Lua, o que não teríamos feito se há milênios não tivesse sido criada a escrita. Imaginemos a obra de quantos gênios, cientistas e poetas não perdemos por falta de registro mais preciso do que a tradição oral.

Na música O poeta aprendiz, Vinicius de Moraes fala de um menino que amava as mulheres, “a mais não poder, por isso fazia seu grão de poesia, e achava bonita a palavra escrita”, e que já sofria de melancolia, antevendo as dificuldades que enfrentaria para bem escrever ao longo da vida.

Efetivamente a escrita não é simples, o registro de textos é uma forma específica de processar as linguagens, envolve a transferência para uma forma bem mais complexa de comunicação, já que a verbal tende a ter uma representação mais clara e autossuficiente dos significados, dado que auxiliada por gestos, entonação, silêncios, pausas respiratórias e outros recursos que a complementam e explicitam.

Tais elementos extralinguísticos permitem que participantes, face a face, tenham mais facilidade de entendimento não apenas do que é dito, mas também de todo o contexto envolvendo a situação específica; constituindo-se como grande veículo de informalidade, ao lado das expressões faciais e entonações que tornam mais segura a comunicação.

No entanto, o uso da língua escrita é o maior responsável pela transmissão dos conhecimentos de uma para outra geração, difusão da cultura e de aprendizagem escolar.

Ao realizar a transposição do oral para o escrito é que a natureza social e funcional das instituições escolares se manifesta na plenitude, pois o domínio da escrita não se reduz simplesmente ao controle do simbolismo gráfico, suas funções extrapolam a mera convenção e permitem variados registros. Usar adequadamente a linguagem escrita envolve a capacidade de selecionar ajustes linguísticos mais apropriados à conjuntura, existe uma potencialidade de usos que dependem de região, cultura, classe social, pois variações linguísticas estão presentes em toda comunidade humana.

De forma geral pode-se dizer que a língua escrita depende de três fatores interligados e básicos: a natureza dos significados expressos num determinado idioma, variáveis em função da própria constituição social de seus falantes, o tipo de relacionamento entre emissor e destinatário, já que determinados grupos sociais têm seus códigos próprios, diferentes dos usados quando seus membros se comunicam com “estrangeiros”; e a modalidade do contato, já que cartas, bilhetes, e-mails, escrita de leis e de livros técnicos ou literários tem diferentes regras de confecção.

Ao discutir a capacidade de uso de uma língua, pesquisadores constatam que este é um excelente indício do nível educacional da população, pois se reflete além disso nas questões mais gerais envolvendo a compreensão daquilo que lê nas questões de cidadania e das normas sociais.

De acordo com Boaventura de Souza Santos, a relação com a cultura escrita desenvolvida na Europa a partir do século XV alterou “a retórica, assente na persuasão; a burocracia, baseada em imposições autoritárias por meio de padrões normativos; a violência, assente na ameaça da força física”; ou seja, nenhum aspecto da vida moderna, para o bem ou para o mal, é independente do fato de que aprendemos a escrever. Isso mudou totalmente a civilização, embora escrita e leitura sejam hoje tão “normais” que quase não pensamos na sua essencialidade.

 

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