Gastamos um Neymar por mês com o Congresso Nacional

09/08/17 às 00:00 Karlos Kohlbach | karloseak@gmail.com

Neymar Júnior tomou conta do noticiário mundial. Mundial mesmo. A notícia da transferência do jogador brasileiro do time espanhol do Barcelona para o PSG, da França, percorreu centenas de países das mais diferentes línguas. Só se falou em Neymar. Também pudera. As cifras envolvidas na transação assustam: R$ 822 milhões foi “só” a multa paga pelo clube francês para tirar Neymar da Espanha.
Fora o salário do astro brasileiro, que será de pouco mais de R$ 9 milhões. Divulgado os valores, começou-se então uma matemática frenética difundida principalmente em redes sociais: Neymar vai receber tanto por dia, outros tantos por hora, mais um punhado por minutos, por segundo. Com este salário, Neymar poderia comprar não sei quantos jatos, Ferraris, apartamentos, carros populares, lancha, iphones. Fizeram até conta de quantos lanches Big Mac o jogador poderia comer com os vencimentos mensais. Não faltou criatividade.
Os números de fato impressionam demais. Mas você já pensou se este dinheiro saísse do seu bolso? Pouco mais de R$ 822 milhões. E, caro leitor, se eu te dissesse te comprovasse que eu e você gastamos muito mais com isso e não nos damos conta. Sabe quanto custa do dinheiro público a manutenção do Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal – por dia para nós brasileiros?
Levantamento feito pela ONG Contas Abertas estima que neste ano de 2017 esta conta é de R$ 28 milhões por dia. Repito: iremos gastar R$ 28 milhões por dia com a Câmara e o Senado. Já foram R$ 5 bilhões nestes primeiros seis meses – e ainda falta metade do ano. Ou, como queira, ainda precisamos pagar outros R$ 5 bilhões. Em época de Lava Jato, você há de concordar comigo, que não é lá um investimento inteligente. Não se quer aqui, longe disso, suprimir as atividades do Congresso – do ponto de vista da democracia brasileira. Mas se propõe aqui uma reflexão sobre o orçamento cada vez mais inchado para manter os nobres deputados federais e senadores – contando claro com a infinidade de benesses, assessores, os auxílios moradia, terno e tantos outros penduricalhos. O orçamento para 2017 do Congresso é de pouco mais de R$ 10 bilhões. Os parlamentares em Brasília podem inverter a conta e afirmar sem medo de errar: “poderíamos montar um time com 11 Neymar’s e ainda teria Neymar na reserva”.
Passado o susto com o gasto que temos para manter o Congresso em funcionamento, não poderia deixar de mencionar três coisas: senhor deputado, senhor senador, pense no quanto seu trabalho custa para nós brasileiros e compare com o resultado que vossas excelências apresentam. A segunda: se você ficou curioso para saber quantos Big Macs Neymar poderia comprar por mês, eu vou lhe informar -- mais de 800 mil. E, por derradeira, só o tempo que você leitor levou para ler este texto, o Neymar Júnior embolsou mais de R$ 600.

As visitas noturnas de Gilmar
São cada vez mais frequentes e incomodas as visitas noturnas que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, faz ao presidente da República Michel Temer (PMDB). Neste fim de semana não foi diferente. Novamente Gilmar foi visto saindo do Palácio do Jaburu no domingo à noite. Como presidentes de poderes, nada mais normal que Temer e Gilmar tenham assuntos para debater. O presidente do Supremo afirmou que foi ao Jaburu tratar com Temer sobre a reforma política. O tema é de extrema relevância e merece sim a atenção dos chefes do Executivo e do Legislativo. Mas na calada da noite? Por que tais reuniões não acontecem no Palácio do Planalto? Por quê nenhum outro ministro do Supremo é convocado para debater a reforma? Gilmar Mendes possivelmente irá julgar ações contra o presidente da República – importante relembrar que Temer foi denunciado por corrupção, mas só responderá pela acusação depois de deixar o cargo – conforme votação na Câmara Federal. O que tem chamado à atenção é a completa antipatia pelo Procurador Geral da República Rodrigo Janot. A tal ponto de Gilmar Mendes declarar publicamente que Janot é o procurador geral mais “desqualificado da história” da PGR. A declaração é no mínimo indelicada. Vindo então do presidente do STF só reforçam os indícios de que tais reuniões com Temer, declarado inimigo de Janot, não tratam tão somente da reforma política. As visitas noturnas são tão impertinentes para o momento político do Brasil que, pelas redes sociais, o procurador da República, Carlos Fernando Dos Santos Lima, afirmou: “a credibilidade do STF está em risco com a falta de pudor desse ministro”.

Uma briga que só interessa aos bandidos
É preocupante a briga que já se torna pública pelo noticiário e pelas redes sociais entre o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. Alçados ao posto de “salvadores da pátria” pelos brasileiros no incansável combate à corrupção, vistos principalmente na Lava Jato, os “mocinhos” estão em guerra e este embate só interessa, e só vai beneficiar, os “bandidos”. A queda de braço é nítida a tal ponto que o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, veio a público dizer que a Polícia Federal faz críticas à delação da Odebrecht porque existe uma “disputa pelo poder” e que “a PF só ataca acordos dos quais não participa”.
Esta guerra já estava instalada intramuros. O holofote da imprensa brasileira sobre a Lava Jato provocou cisões entre as duas entidades. É importante que tanto MPF quanto PF não se esqueçam de suas atividades fins. Para os brasileiros tanto faz se a delação foi fechada por delegados de polícia ou por procuradores. Tanto faz quem deu a entrevista que apareceu na televisão falando sobre a Lava Jato. Que MPF e PF não percam de vista o motivo pelo qual hoje são instituições muito bem avaliadas: o combate à corrupção doa a quem doer.

0 Comentário

Você precisa acessar o seu perfil para comentar nas matérias.

Blogs
Ver na versão Desktop