Famílias de Curitiba têm Dia dos Pais em dose dupla

STF reconhece desde 2015 o direito de casais homoafetivos adotarem. Ação que originou decisão foi impetrada por casal de Curitiba

13/08/17 às 09:30 - Atualizado às 14:50 Rodolfo Luis Kowalski
Bruno e João estão na fila de espera para adotar um filho (foto: Franklin de Freita)

Para algumas famílias do Paraná, o Dia dos Pais, celebrado neste domingo, será em dose dupla. É que nos últimos anos o amor saiu do armário. Se antes formar uma família era um sonho distante, difícil de se acreditar para os homossexuais, hoje é cada vez maior o número de casais gays com uma família para chamar de 'sua'. Desde 2015 o Supremo Tribunal Federal (STF) reconhece o direito de casais homoafetivos adotarem.

Embora não existam dados oficiais sobre tais adoções, é crível imaginar que desde então cresceu consideravelmente em todo o país o número de crianças com dois pais. Até porque a decisão do STF vem na esteira de uma série de avanços conquistados e direitos básicos garantidos à população LGBT, como o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil como entidade familiar, em 2011, o que propiciou o crescimento das uniões homoafetivas – entre 2014 e 2015, segundo dados do IBGE, praticamente dobrou no Paraná o número de uniões entre homens, por exemplo.

Em todo o Brasil, o primeiro caso de adoção homoafetiva de que se tem notícia data de 2005, envolvendo uma família de Catanduva (SP). Em terras paranaenses, os pioneiros foram o curitibano Toni Reis, 53, e o inglês David Harrad, 59, juntos há 27 anos. Desde o ano 2000 eles já cogitavam adotar uma criança, mas foi só em 2005, após David conseguir o visto de permanência no país, que ingressaram com o
pedido de adoção conjunta, que acabaria por originar o processo decidido em 2015 pela ministra Cármen Lúcia, hoje presidente do STF.

Entre idas e vindas – como a tentativa de um juiz em restringir a adoção somente para crianças somente do sexo feminino e que tivessem mais de 10 anos de idade e as alegações de um promotor do Ministério Público de que
casais do mesmo sexo não formam uma entidade familiar e, portanto, não poderiam adotar conjuntamente -, em 2011 o casal conseguiu adotar o seu primeiro filho, Alysson, hoje com 16 anos. Desde então, a família cresceu ainda mais e recebeu as adições de Jéssica, 13, e Felipe, 11, que são irmãos biológicos.

O processo de adaptação, contudo, não foi fácil, em especial no caso da primeira adoção. A primeira dificuldade foi o choque “entre-mundos”. É que o menino vinha da comunidade de uma favela e estava em uma família cujo pai acolhedor era bastante religioso e intransigente com relação ao homossexualismo. Além disso, vivenciou a dolorosa experiência de separação de sua família, da qual foi tirado por motivos de maus tratos, e havia passado por mais de sete abrigos, nos quais sofria repressão e duros castigos.

Tivemos que nos entender. A comida era diferente, a música, o volume da voz, os palavrões. Tivemos que ir modulando. É um passo de dança, pais e filhos tem que dançar a valsa. As vezes dá uma pisada no pé, mas a gente foi se reinventando na relação e aos poucos fomos conhecendo um menino inteligente, bem humorado, comunicativo, encantador, carinhoso e extramente sociável”, relata Toni.

Eles querem ser pais

Em abril deste ano, os curitibanos Bruno Banzato, servidor público, e João Pedro Schonarth, jornalista, viraram notícia em todo o país. Em preparação para adotar o primeiro filho, o casal construiu uma residência no bairro Água Verde, em Curitiba. Quando as obras estavam no fim, foram surpreendidos por panfletos homofóbicos espalhados pelo bairro, os quais traziam foto e até mesmo o futuro endereço do casal.

O objetivo da peça homofóbica era afugentar os futuros moradores. Mas acabou gerando um efeito contrário: diante da repercussão que o caso alcançou, foram diversas as manifestações em apoio aos dois, que estão casados há sete anos, e até mesmo um ato em solidariedade aos futuros pais e contra a intolerância foi promovido na Praça Guanabara, próximo à residência para onde eles já se mudaram.

A gente ficou bastante surpreso com a repercussão positiva. Saber que a sociedade nos apoia, que as pessoas ficaram positivas, nos deu mais forças ainda para seguir com os planos de adoção”, conta Bruno. “Quando passeamos com os cachorros as pessoas vem conversar, perguntar como a gente está. Nos sentimos muito acolhidos pela vizinhança”, emenda João.

A ansiedade pela chega do filho, inclusive, é grande. Há dois anos eles estão na lista de espera para adoção, algo que só deve se concretizar em 2019 devido ao perfil desejado: criança do sexo masculino, com até quatro anos de idade. A ideia de aumentar o tamanho da família, contudo, existe desde o início do casamento.

“Desde o início do casamento conversamos sobre esse assunto, mas fomos percebendo que faltavam algumas etapas”. Em 2014, já estabilizados financeiramente e emocionalmente/psicologicamente, os dois começaram a ler mais sobre o assunto e em dezembro entraram com o processo. “Fomos habilitados em junho de 2015 e desde então estamos na fila.”

Enquanto aguardam por uma ligação, Bruno e João aproveitam e se prepararam para a paternidade. Além da casa, que já foi construída pensando no futuro filho, o casal ainda frequenta palestras sobre adoção para se preparar melhor e conta com ajuda de profissionais, como terapeutas. Tudo para serem os melhores pais possíveis.

“É o nosso sonho, nós dois sonhamos em ser pais. Temos muita clareza da responsabilidade que é ser pai, ter de formar um cidadção para colaborar com a sociedade. Quero fazer de tudo para que ele seja uma boa pessoa”, afirma João. “LGBT é um desafio por dia. Todas as decisões que tomamos envolvem um desafio muito maior do que os casais heterossexuais. Estamos nos preparando melhor ainda para dar o melhor possível para a criança”, finaliza Bruno.

Dia dos "Pães" e festa em dobro

Para a família de Toni Reis e David Harrad, a festa será em dobro nesta semana. É que além do Dia dos Pais, celebrado hoje, na quarta-feira é aniversário do filho caçula, Filipe. "Então, vamos celebrar as duas festas juntas no dia do aniversário do Filipe (já que o Toni está viajando a trabalho). Em anos anteriores, os filhos criaram o costume de fazer um café da manhã surpresa especial para os pais. Fazem isso também no Dia das Mães, que apelidaram de Dia dos Pães (mistura de pais com mães)!", conta David.

O amor saiu do armário

Desde maio de 2011, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu de forma unânime o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, reconhecendo um “novo” tipo de família, a união homoafetiva está em alta no Brasil e no Paraná. Segundo as Estatísticas do Registro Civil, divulgadas anualmente pelo IBGE, entre 2013 e 2015 o número de casamentos gays cresceu 51,7% no país e 76,8% no estado.

Em 2013, primeiro ano em que o relatório do IBGE abordou a união homossexual, o Brasil havia registrado um total de 3.700 casamentos homoafetivos. Em 2015, último ano com dados disponíveis, o número já havia saltado para 5.614. Já no Paraná, saltou de 168 uniões para 297.

 

0 Comentário

Você precisa acessar o seu perfil para comentar nas matérias.

Blogs
Ver na versão Desktop