Professores ainda são necessários

27/09/17 às 00:00 Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

Praticamente todas as áreas de conhecimento estão sofrendo os efeitos de uma irritante simplificação, ainda que se reconheça que há muitas coisas complicadas que devem mesmo ser simplificadas: está sendo invadida a seara da especialização, do saber que demanda anos de estudo e experiência. Muitos médicos, por exemplo, enfrentam discussões com pacientes, leigos, que já definiram o próprio diagnóstico e tratamento através do “doutor Google” e refutam a opinião do profissional quando diverge daquilo que veem como verdade, coisa muito diferente de pedir uma segunda opinião médica. Isso é cada vez mais comum em todas as profissões, e ocorre com frequência alarmante na educação, alunos e mesmo dirigentes de escola parecem acreditar que apenas a tecnologia educacional é suficiente para a construção do conhecimento, não percebendo que os conteúdos dos softwares são produzidos por professores, e tem alcance genérico necessitando da complementação, contextualização e mediação docente.

O século vinte nos deu um estilo literário distópico em ficção científica, livros pessimistas com histórias que não deixam muita esperança para nossa pobre espécie. Dentre os melhores, 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Em comum, narram cotidianos de pessoas submetidas a um Estado que sequer entendem, tudo se passa como se o poder que as governa tivesse existência separada do restante da sociedade, e o conhecimento viesse sempre em “pacotes”. Algo semelhante à absoluta/absurda confiança que parte da humanidade parece depositar nos oráculos eletrônicos, sem a menor consciência do fator humano na sua origem, certamente o componente mais importante.

Chega-se ao ponto de duvidar da profissão de professor, como se o magistério devesse se tornar mero recurso de treinamento e aplicação de metodologias empacotadas para alunos que não teriam nenhum interesse em aprofundar informações e conhecimentos. Isto, quando o mundo demanda pessoas capazes de pensar, ter visão de conjunto e tomar decisões rapidamente frente a desafios científicos e tecnológicos constantes.

A mais recente pesquisa da Organização para a Cooperação Econômica, fórum internacional que promove políticas públicas em muitos países, analisa vários fatores de atraso nos IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e destaca a questão educacional, incluindo a deficiente formação docente, causa e consequência da baixa remuneração – média anual brasileira de treze mil dólares em contraposição a trinta mil nos demais países – o trabalho com as maiores turmas, que no Brasil alcança no ensino médio 26 estudantes por sala, bem maior que a média mundial.

O mesmo estudo aponta que formamos um dos menores números de professores em ciências, matemática e engenharia, certamente em função da necessidade de bons laboratórios, tanto na aprendizagem quanto mais tarde na docência, bons livros e recursos tecnológicos. Ensino e aprendizagem não se resumem à aplicação de meras técnicas, é bem mais que isso, e o provam países cujos sistemas educacionais são considerados de sucesso. A formação de um bom professor é morosa, envolve bons conhecimentos de habilidades cognitivas, como tomada de decisão, raciocínio flexível, desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas, interesse genuíno pelos estudantes, boa cultura geral.

Muitos têm dúvidas hoje se ainda vale a pena ser professor, pois a carreira do magistério parece destinada ao simples treinamento, já que está estabelecido que boas escolas são aquelas que investem em computadores, softwares, metodologias mais ativas que utilizam mais o empenho do próprio estudante na construção de seu conhecimento; no entanto, a boa utilização destes recursos não prescinde de um bom professor.

Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil

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