Redes como Facebook e Airbnb começam a banir os haters

27/09/17 às 21:40 - Atualizado às 08:34 Sérgio Augusto

Em sua conta no Twitter, Fernanda Montenegro não aparece desde abril de 2011. Ainda assim um dos tuítes de maior repercussão na semana trazia sua assinatura. Postado por um anônimo, reproduzia uma declaração da atriz sobre as contínuas exortações de grupos de extrema direita a uma intervenção militar no país. Ei-la: "Pedir a volta dos militares é coisa de doentes mentais." Embora acolhido e retuitado com entusiasmo pela maioria dos internautas, não sem motivo inquietos com uma velada ameaça intervencionista horas antes feita pelo general Antonio Hamilton Mourão, o esculacho de Fernanda despertou a ira dos que acreditam que só uma quartelada pode dar fim à atual crise política e erradicar a corrupção. Uma ira insana, hidrófoba, selvagem, a fúria padrão dos haters das redes sociais.

Nossa maior atriz foi xingada de quase tudo: de "vendida à Rede Globo", de "velha carcomida" - sem exclusão do "merda" a que volta e meia Chico Buarque e outros também costumam ser reduzidos pelos visigodos da internet. Umberto Eco até que pegou leve ao lastimar que a maior contribuição das redes sociais tenha sido dar voz aos imbecis. São mais do que imbecis aqueles que, envenenados por preconceitos e pela ignorância, fizeram do Facebook, Twitter e congêneres uma espécie de Al-Qaeda digital.

O Bin Laden dessa tribo é Donald Trump. Com expediente full time no Twitter, sua plataforma eletrônica favorita, Trump estimulou a degeneração da blogosfera numa praça de guerra verbal, com ininterruptos atentados à verdade, ao bom senso e ao debate civilizado.

Encorajado pela desabrida grossura do presidente, o belicoso fanatismo da ultradireita espalhou-se na rede como uma peste sem controle, satanizando e até ameaçando de morte negros, judeus, homossexuais e quem mais considere indignos de viver na "América branca e pura". Culminando com a marcha racista (supremacista é eufemismo) de 12 de agosto, em Charlottesville, na Virginia.

A partir daquela exibição pública de atrevimento e agressividade, o nível de hostilidades na internet aumentou numa escala assustadora, com internautas assumidamente racistas, neonazistas, homofóbicos, sexistas e jingoístas proliferando feito ratos em sites e nas principais redes sociais. Individualmente e em grupo, com suas verdadeiras identidades ou covardemente ocultos por um pseudônimo.

Como se estivessem celebrando o vigésimo aniversário da expressão "hater", que supostamente floriu na letra de um sucesso pop do ator Will Smith, Gettin’ Jiggy Wit It, referindo-se apenas a pessoas contaminadas pela inveja, os destiladores de ódio na rede tanto extrapolaram que os gigantes da internet decidiram bani-los de seus domínios. Pois além das consequências previsíveis, o radicalismo dos odientos estaria espantando anunciantes.

A limpeza começou por clientes individuais, como o skinhead antissemita Christopher Cantwell, expulso do site de relacionamento OkCupid, e logo os vigias da internet passaram a barrar também grupos e organizações. O Facebook e o site de serviços turístico-imobiliários Airbnb saíram na frente. O site racista Daily Stormer perdeu sua hospedagem no domínio GoDaddy por ter debochado de Heather Heyer, aquela moça atropelada por um "supremacista" durante o confronto na Virginia. Seu imediato asilo no Google, assim como o do grupo Stormfront.org , durou apenas algumas horas. 

Cinco dias depois do quebra-quebra em Charlottesville, o Google tirou de sua loja virtual o aplicativo da rede social Gab.ai (Gab, conversa; ai, internet alternativa), um refúgio de iracundos racistas. Sem plataforma disponível para smartphones e iPhones, o Gab, que ainda pode ser acessado em navegadores da rede, teve sua capilaridade bastante afetada. Mas não amainou sua cólera. Nem perdeu o ânimo de aglutinar outros serviços, como Pew Tube (o YouTube supremacista), Metapedia e o site de purificação da raça Wasp.love, numa grande infovia exclusiva.

Fundada em San Mateo (Califórnia) por Andrew Torba, ex-executivo de uma firma publicitária digital, três meses antes da eleição de Trump, a Gab foi a saída empresarial e ideológica que Torba, ex-cabo de eleitoral de Trump no Vale do Silício, encontrou para vingar-se da rede por ter sido expulso de uma de suas empresas, sob acusação de bullying - se sexual ou racial, não sei. Com US$ 1 milhão de capital e a ideia fixa de destruir a internet, a seu ver monopolizada por "marxistas, antibrancos, liberais, feministas e fiscais do politicamente correto", criou-lhe uma alternativa, em que qualquer um pode postar livremente o que bem entender, de comentários nazistas a piadas racistas, sexistas e antissemitas.

Seus usuários mais típicos não perdem uma chance de postar algo repulsivo. Um deles saudou a passagem do furacão Harvey como um castigo divino aos negros. A propósito do recente eclipse solar total nos Estados Unidos, um ventríloquo do Ku Klux Klan soltou esta gracinha: "O sol não só ficou preto como vai exigir reparações." Durante os preparativos para a marcha sobre Charlottesville, o grupo de ultradireita Right Wing Dev Squad anunciou ter planejado para o fim de semana "curtir a dolce vita, com uma cerveja na mão, um código na telinha do celular e um judeu no forno".

Todas as notificações do Gab são anunciadas pelo coaxo de um sapo antropomórfico chamado Pepe, mascote da rede alternativa. Um relincho seria mais adequado.


Rápida

Google tirou do ar
Cinco dias depois do quebra-quebra em Charlottesville, o Google tirou de sua loja virtual o aplicativo da rede social Gab.ai (Gab, conversa; ai, internet alternativa), um refúgio de iracundos racistas. Sem plataforma disponível para smartphones e iPhones, o Gab, que ainda pode ser acessado em navegadores da rede, teve sua capilaridade bastante afetada. Mas não amainou sua cólera. Nem perdeu o ânimo de aglutinar outros serviços, como Pew Tube (o You, numa grande infovia exclusiva.

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