“Eu tenho tanto prá lhe falar, mas com palavras não sei dizer...”

03/10/17 às 00:00 Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

O verso inicial da canção de Roberto Carlos, que embalou o romance de gerações, expressa de modo surpreendente o que é Arte e o que são as frustações dos artistas, de todos os que realmente são e também dos que pretendem ser. A descoberta, a revolta, a angústia, a beleza, a feiura, o amor, o ódio, todos os sentimentos humanos que, de algum modo, precisam ser expressos, e quase sempre esbarram no obstáculo intransponível entre intenção e gesto. A grande Arte é, na essência, a realização deste feito.

A distância entre o que sentem o gênio e a pessoa comum é muito pequena, a diferença fundamental está na forma de concretizar esta percepção. Todos nos comovemos com belos crepúsculos na praia, “capturar” este momento em uma fotografia ou numa pintura parece natural, mas a imensa quantidade de obras com este tema, e a absoluta raridade das realmente boas mostra algo diferente. No entanto, a sensibilidade para a beleza do que foi visto é importante. Um grande escultor declarou que a escultura já existia dentro do bloco de pedra, ele se limitava a retirar os “excessos”. Poucos, além de Michelangelo, eliminariam os excessos do mármore até revelar o David ou a Pietá que certamente já estavam lá, mas apreciar as esculturas revela sentimento do que é belo.

Sabe-se que “o amor deve ser eterno enquanto dure”, e foi preciso um poeta do quilate de Vinícius de Moraes para enunciar este truísmo em definitivo; até as crianças trauteiam o “tan, tan, tantan” da abertura da Quinta de Beethoven, mas antes do compositor isto não existia. Entretanto, saber ouvir poesias ou música, reconhecendo suas qualidades – ou ausência delas – necessita um ouvido educado e um certo conhecimento das manifestações artísticas. Um bailarino, provavelmente Nureyev, respondendo a uma pergunta sobre qual seria o segredo da extraordinária leveza que transmitia em determinado movimento, disse que era simples, bastava parar no ar um breve instante. Michael Jordan, em outro contexto, poderia dizer o mesmo. Embora não sejamos, como maioria, aptos a reproduzir estes movimentos, podemos apreciá-los.

A arte estabelece um importante elo entre o presente e o passado, e nos remete ao futuro, conferindo nexo e propósito à vida, impedindo-a de estagnar, de percebe-la girando em círculos, quando na verdade ocorre em espirais. Por isso ela é fundamental dentro das escolas, fazendo com que crianças e jovens desenvolvam o sentimento de pertencer a uma determinada cultura, regional e também nacional, mas acima de tudo da espécie humana. É através da escrita, do desenho, da música, da escultura e muitas outras formas de expressão artísticas que podemos tentar transmitir aos demais os nossos sentimentos, nossos medos, nossas alegrias. Às escolas específicas cabe o aperfeiçoamento dos talentos musicais, das potencialidades em artes plásticas ou visuais, como já pensado por Herbert Marcuse, sociólogo e filósofo alemão naturalizado norte-americano, em uma de suas frases mais famosas: “a verdade da arte reside no seu poder de quebrar o monopólio da realidade estabelecida para definir o que é real”.

Se é verdade que nenhuma instituição de ensino pode propor transformar em gênios todos os seus estudantes, certamente muitas delas conseguem orientar no sentido de que cada ser em formação consiga transmitir o melhor de si em suas manifestações vivenciais e culturais. Desenvolver suas potencialidades ao máximo, ter uma família equilibrada, ser um bom profissional e um membro ativo e solidário em sua comunidade, tendo ao menos uma boa apreciação das artes, é o ideal pretendido pelo sistema educacional, já que nem todos estão fadados a serem artistas. Comunicar ideias, conceitos, informações constitui a essência do trabalho educativo, a realidade de verdadeiros artistas ou de apreciadores da arte é burilada em boas escolas.

 

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